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O Espelho de Hegel e a Sombra do Sul: A Dialética do Silêncio entre Safatle e o Pensamento decolonial Latino-Americano

No cenário intelectual brasileiro, o silêncio raramente é ausência de resposta; frequentemente, é uma estratégia de preservação de hegemonia. Quando Vladimir Safatle publicou "O grande FMI universitário", sua crítica aos estudos decoloniais foi recebida como um ultimato da razão dialética europeia contra o que ele chamou de "gestão de subjetividades", colocando dentro deste pacote toda a diversidade do Pensamento Decolonial, qual ele talvez desconheça. (A propósito, lideranças de diversos grupos intelectuais brasileiros escrevemos um texto coletivo e enviamos para a publicação nas Revistas Piauí, que ignorou até aqui e Boitempo, que rejeitou educadamente).

No entanto, escrevi uma resposta ao texto de Safatle como Carta Aberta (intitulada como Carta Aberta à Revista Piauí e a Vladimir Safatle : Contra o "FMI" da Razão Europeia) não apenas contestando essa premissa, como o fez munida de uma densidade materialista — ancorada na Teoria Marxista da Dependência (TMD) e na Filosofia da Libertação — que o filósofo parecia ignorar.

Safatle escreveu um segundo texto para responder algumas críticas quais ele citou nominalmente e muito provavelmente as que leu e não citou, o segundo texto, "Quem pensa abstratamente?", é um fenômeno de "correção de rota": o desdém irônico deu lugar a uma metafísica defensiva. A dúvida se Safatle leu minha "Carta Aberta" fica forte diante da precisão com que ele tenta "fechar as janelas" que nela abri, embora persista em fragilidades que revelam um desconhecimento estrutural das categorias que pretende refutar.

1. A Genealogia em Fuga: Do "Decalque" à "Abstração"

No primeiro ato, Safatle tentou reduzir a decolonialidade a um subproduto do mercado acadêmico do Norte:

Safatle (Texto 1): "Um decalque da vida universitária americana, trazido por professores expatriados [...] um receituário exportado."

Na carta, expus um "ponto cego" histórico dessa afirmação, situando a decolonialidade na longa duração da resistência latino-americana:

(Carta Aberta): "Sua análise padece de um 'ponto cego' profundo [...] ignora que essa resistência foi corporificada por [...] Aqualtune e Dandara dos Palmares, que organizaram o Quilombo, o primeiro grande projeto de Estado decolonial nas Américas."

O Sintoma no Texto 2: Notadamente, Safatle abandona a tese do "produto importado". Ele agora tenta neutralizar a história da resistência local através de uma manobra hegeliana, rotulando a defesa do território e da ancestralidade como "abstração":

Safatle (Texto 2): "Pensar abstratamente é [...] fixar-se em determinações isoladas, como se elas fossem o todo. É o que acontece quando [...] transformamos a identidade em um absoluto."

Ao trocar "decalque americano" por "abstração particularista", Safatle tenta responder à crítica histórica que fiz na carta, sem citá-la, desloca o debate da história para a lógica, talvez para não ter que enfrentar o fato de que o Quilombo foi uma categoria política concreta muito antes de Hegel escrever sua Fenomenologia. E caso ele conhecesse os estudos sobre identidade mais recentes do campo decolonial, saberia que a essencialização da identidade é uma armadilha (menção ao livro Armadilhas da Identidade) que talvez algumas e alguns tenham caído, mas já sendo discutido. Minha tese de doutoramento é uma incursão na questão da identidade na cultura ocidental, apontando o risco de identitarismos. Fica a questão de se a essencialização do cânone eurocêntrico não é também uma ferramenta identitária do academicismo brasileiro.

A questão da Materialidade


Safatle, em seu primeiro texto, acusava a decolonialidade de ser um "idealismo" voltado para o mundo acadêmico. Rebati convocando um dos "núcleos duros" da economia política latino-americana:

Matos (Carta Aberta): "Na periferia, a raça é o que permite a superexploração do trabalho (conforme a TMD de Ruy Mauro Marini) [...] servindo para compensar a desvantagem tecnológica do capitalismo dependente através da espoliação de corpos racializados."

Não apenas evoquei Marini, mas a linhagem de Vânia Bambirra, fundamental para entender que a dependência não é um "erro de percurso", mas uma estrutura material que exige a superexploração.


O Sintoma no Texto 2: Safatle tenta, então, provar que ele é o verdadeiro materialista, usando a "forma-capital" contra o que ele chama de "conflitos identitários":

Safatle (Texto 2): "O pensamento concreto é aquele que consegue apreender a totalidade [...] Quem não vê a forma-capital agindo por trás de cada conflito identitário está pensando abstratamente."

A Fragilidade: Safatle "leu" a provocação sobre a TMD, mas em vez de incorporar Bambirra, tenta "engoli-la" na Totalidade hegeliana. Ele falha ao não perceber que, para a TMD e outras elaborações teóricas que citei, a raça e o gênero são a economia política da periferia. Ao chamar de "abstração" o que Bambirra e Marini, Hinkelammert... provaram ser a base da acumulação dependente, Safatle revela que sua "totalidade" é, na verdade, um universalismo paroquial europeu que não alcança a estrutura do capitalismo no Sul.


A Anatomia da Modernidade e a Idolatria do Capital


Utilizei a "anatomia da modernidade" de Enrique Dussel e a crítica à "idolatria do mercado" de Franz Hinkelammert para mostrar que o capitalismo tem uma face teológica e colonial.

O Sintoma no Texto 2 de Safatle:

Safatle (Texto 2): "A verdadeira crítica não se faz por meio de denúncias morais sobre a 'idolatria' ou a 'maldade' do sistema, mas pela análise fria da forma-capital."

Análise: Parece ser uma resposta direta ao meu parágrafo sobre Hinkelammert. Safatle tenta reduzir a Economia da Libertação a uma "denúncia moral", ignorando que Dussel, Hinkelammert e demais pensadores e pensadoras que a isso se dedicam, analisam a modernidade como um sistema-mundo cujos dispositivos disciplinares são constitutivos do capital. Safatle prefere a "ferramenta universal" da modernidade alemã como válida universalmente e inquestionável do que admitir a necessidade de um Giro Epistemológico.


Epistemicídio e "Consciência Hospedeira"


O ponto final da crítica que efetuei na carta foi a denúncia de que silenciar autores locais é um ato de violência acadêmica:

Matos (Carta Aberta): "O distanciamento de nossa produção é um ato de epistemicídio. Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez denunciaram esse silenciamento [...] Muitas pessoas ainda agem como 'papagaios' de gabinete."

O Sintoma no Texto 2: Safatle tenta se defender sem citar essas autoras, reafirmando a soberania do universalismo europeu:

Safatle (Texto 2): "A verdadeira crítica não precisa de um 'lugar de fala', mas de uma posição de verdade que seja universal."

Aqui, Safatle parece exemplificar o que Paulo Freire chama de "consciência hospedeira": ele talvez esteja habitado pela razão do colonizador e, por isso, sente agonia ao ver que o Sul produz teoria sem pedir licença. Ao escrever um segundo texto tentando "corrigir" as lacunas do primeiro sem reconhecer o plural e imenso campo decolonial mundial (e latino-americano), Safatle pratica, em tempo real, o epistemicídio que nega cometer.


Sobre o eurocentrismo canônico na universidade brasileira


Esta rápida comparação nos dá elementos de que Safatle foi "pro-vocado" pelas crítias que recebeu. Ele abandonou a ironia e buscou refúgio na metafísica para não parecer intelectualmente desarmado diante da Teoria da Dependência e da Filosofia da Libertação, que podem estar inscritas no campo decolonial, por definição.

Entretanto, as fragilidades apontadas por nossa carta e os diversos textos de críticas permanecem sem resposta: Safatle continua incapaz de articular as diversas teorias, pensadoras e pensadores decoloniais com sua dialética eurocêntrica e mantém a recusa em "Sulear" seu pensamento. Ele prefere dialogar com o Hegel de 1807 do que com a teoria viva que pulsa no Brasil de 2026. Este silêncio não é apenas uma escolha acadêmica; é a confissão de que a razão hegemônica, quando confrontada com o pensamento suleante, só consegue responder através do encastelamento. A defesa dogmática do canône eurocêntrico em um momento que as teorias políticas do séc. XX explicitam seu limite frente as complexidades da realidade política mundial deste momento, em especial na América Latina, nos evidenciam que se nas lutas contra o totalitarismo neoliberal podemos contar com intelectuais acadêmicos para melhor refletir e compreender a conjuntura, guardando os limites eurocêntricos, por outro lado, talvez seja o momento de discutirmos abertamente a disputa pelo canône da universidade brasileira. E para isso, Safatle merece reconhecimento, ainda que de forma equivocada, em minha leitura.

 
 
 

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