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Carta Aberta à Revista Piauí e a Vladimir Safatle : Contra o "FMI" da Razão Europeia

Prezado Vladimir Safatle,


Não tenho 20 anos de USP, mas 16 anos no Ensino Superior, precarizado, sim, mas minha docência forjada pela militância e ao mesmo tempo, luta pela sobrevivência, que vem do trabalho desde os 14 anos de idade que me impediram de chegar à universidade mais cedo... E talvez por isso, a Filosofia a qual me dedico, os estudos quais me permito, são aqueles que brotam da necessidade das lutas que travo e da sobrevivência que me impera...


Senti enorme desconforto ao ler seu ensaio "O grande FMI universitário" no qual propõe uma crítica ao que você define como a natureza colonial dos estudos decoloniais. Ao caracterizar esse movimento como um receituário exportado de universidades americanas por professores expatriados, sua análise padece de um "ponto cego" profundo: ela ignora a práxis ininterrupta de libertação que pulsa na América Latina séculos antes de se tornar "um objeto de consumo em centros globais", se é que de fato, se tornou. O que você chama de "FMI universitário"  demonstra um desconhecimento da linhagem que se enraíza no que chamo de Enosamento, um vínculo indissolúvel entre a sobrevivência material, a memória ancestral e a teoria viva.


1. A Retórica do Desdém: Sinalizando os Termos do Autor

Penso que é preciso confrontar a retórica desrespeitosa que permeia sua crítica. Seu texto utiliza uma terminologia que busca desqualificar a autonomia e a seriedade dos pensadores periféricos. Ao referir-se aos adeptos desses estudos como "adolescentes" ou como intelectuais que estão apenas "administrando suas carreiras", você opera uma desqualificação de milhares de pessoas e de sua práxis. Classificar a decolonialidade como uma "bomba que só produz barulho" ou um mero "decalque da vida universitária"  parece ignorar as lutas territoriais que sustentam essas teorias.


2. Os Pensamentos Decoloniais e a Gênese do Diálogo Sul-Sul

É imperativo reconhecer que os Pensamentos Decoloniais, no plural, possuem diversas faces que emergem de realidades distintas. O Pensamento de Libertação é uma dessas faces fundamentais. Trata-se de uma proposta analítica para pensar a ação humana no e com o mundo, como nos ensinou Paulo Freire ao dizer que o ser humano não apenas está no mundo, mas com o mundo. Esta gênese é profundamente marcada pelo diálogo Sul-Sul, qual você cita apenas a Conferência de Bandung (1955), mas parece ignorar Os Diálogos Pan-Africanos que ocorreram de 1919-1945, antecedendo Bandung. Permita-me fazer uma "síntese" citando poucos nomes de toda uma tradição centenária de pensamento de libertação e decolonialidade latino-americana.


Essa tradição nasce na rachadura da invasão, em 1511, por exemplo, com o sermão de Antón de Montesinos, que retirou a máscara da evangelização para revelar a estrutura de exploração econômica. Esse despertar ético foi sistematizado por Bartolomé de las Casas. Essa resistência foi corporificada por mulheres silenciadas, como a cacica Anacaona no Haiti, e as guerreiras Aqualtune e Dandara dos Palmares no Brasil, que organizaram o Quilombo — o primeiro grande projeto de Estado decolonial nas Américas. Então, não, não "foi preciso esperar até o século XIX para que a questão colonial passasse a ser entendida como o eixo catastrófico do próprio desenvolvimento do capitalismo", com Marx. No século XIX, o pensamento de libertação latino-americano assumiu a forma de um projeto de emancipação política e mental, com diversos autores e autoras, Simón Rodríguez, mestre de Simón Bolívar, que rejeitava a cópia servil de modelos europeus, por exemplo. Esse espírito animou figuras como Juana Azurduy e Bartolina Sisa, que comandaram exércitos nos Andes. Mais tarde, pensadores como José Gaos, Leopoldo Zea, Salazar Bondy, Enrique Dussel, Dina Picotti, promoveram um giro epistemológico em Nuestra América. No campo da Antropologia da Libertação, Alberto Vivar Flores junta-se a Darcy Ribeiro, Viveiros de Castro e Antônio Bispo dos Santos para questionar as matrizes epistêmicas que silenciam os povos originários.


E o pensamento de libertação latino-americano recebeu Marx, Heidegger, Hegel... mas os leram, interpretaram com criticidade e a partir da realidade que pisaram, sem querer transportar as teorias à realidade, como o texto de Schwarz denuncia que fizeram - e ouso dizer que fazem até hoje - muitos intelectuais da América Latina, que parecem esquecer onde pisam. É preciso citar o texto da mesma época: Crítica da Razão Tupiniquim, qual você pode ter esquecido, mas que vem bem à calhar para a ocasião.


3. A Anatomia da Modernidade e a Economia da Libertação

Sua afirmação de que os estudos decoloniais tratam a modernidade como um objeto "monolítico" ignora a anatomia histórica de Enrique Dussel que a partir de Wallerstein, decompõe a modernidade como um sistema-mundo em quatro blocos principais: a Primeira Modernidade (1492); a Segunda Modernidade (1648); a Terceira Modernidade (Séc. XIX); e a Quarta Modernidade ou Transmodernidade. Mostrando que a modernidade é um projeto cujos dispositivos disciplinares tentam criar identidades homogêneas para assegurar o fluxo de matérias-primas da periferia para o centro. Para ele, a colonialidade é constitutiva da modernidade e a espinha dorsal da modernidade é o capitalismo. Como você citou Dussel, desperta diversas suspeitas, já que o autor dedicou-se profundamente em explicitar as complexidades e contradições internas da modernidade em diversas obras.


Sua afirmação de que: "a decolonialidade traz uma reflexão voltada sobretudo

para o próprio mundo acadêmico. Defende que uma crítica verdadeira à colonialidade deve

entender a própria modernidade como um empreendimento colonial, eurocêntrico e por isso

incapaz de produzir coordenadas para um pensamento crítico" parece ignorar a origem do pensamento decolonial (e de libertação) forjados a partir das lutas pela vida, e sim, uma destas frentes de luta é a Universidade, visando descolonizá-la e libertá-la do eurocentrismo. No que tange à crítica à modernidade, você parece confundir o reconhecimento da natureza colonial da modernidade com uma negação cega de suas ideias. A decolonialidade defende que a colonialidade é constitutiva da modernidade; ou seja, não há modernidade sem o colonialismo. Isso não invalida o pensamento crítico, mas exige um giro epistemológico para ver-sentir-pensar o mundo a partir da "ferida colonial". A crítica decolonial não diz que a modernidade é "incapaz de pensar", mas que ela é um projeto de poder que invisibiliza outros saberes. As coordenadas para o pensamento crítico decolonial vêm da alteridade e do diálogo intercultural, e não apenas de conflitos internos da razão europeia. A Filosofia Intercultural de Raul Fornet-Betancourt, é mais uma linha de pensamento decolonial que surge como outra epistemologia.


Outra "crítica" que me saltou aos olhos: "Além disso, postula que a verdadeira ação social de transformação consiste em mostrar que a raça é um dispositivo central de sujeição social, e o território é um espaço fundamental para a emancipação – eixos que foram silenciados pelos processos coloniais. Juntas, essas ideias conseguiram se impor como uma espécie de novo cânone inquestionável. E então acordamos um dia achando que não poderíamos ser críticos sem sermos inicialmente decoloniais."

Este é um reducionismo que ignora a densidade material e histórica das categorias de raça e território, tratando-as como meros "postulados acadêmicos" em vez de resultados de uma práxis secular de libertação. Não parece ter lido Quijano por completo e saber que para o autor, a raça não é apenas um "dispositivo de sujeição social" abstrato, mas uma hierarquia institucional que fundamenta a divisão do trabalho e a exploração capitalista. E se quisermos aprofundar isso, entendemos que na periferia, a raça é o que permite a superexploração do trabalho (conforme a Teoria Marxista da Dependência de Ruy Mauro Marini), servindo para compensar a desvantagem tecnológica do capitalismo dependente através da espoliação de corpos racializados.

Ao tratar o território como um eixo silenciado que virou "cânone", você parece ignorar que, para o pensamento decolonial, o território é o lugar da circunstância. Como aponta Ofélia Maria Marcondes, a educação e a transformação devem partir do "ser humano concreto" e de suas circunstâncias. O território (corpo-terra) é a base das "pedagogias decoloniais" de resistência, como visto nos quilombos de Aqualtune ou nas lutas de Zapata, onde a terra é a condição física para a existência de um saber "outro".

Mais um desrespeito com tom irônico: "acordamos um dia achando que não poderíamos ser críticos sem sermos inicialmente decoloniais". Essa afirmação é desrespeitosa por dois motivos: O "tornar-se decolonial" não é uma moda universitária, mas um processo de tomada de consciência das relações de domínio. É o que Paulo Freire chama de superação da "consciência hospedeira" do opressor. Como define Catherine Walsh, o decolonial denota um "caminho de luta contínuo" para visibilizar lugares de exterioridade. Não se trata de um "cânone inquestionável", mas de um compromisso ético e político com as populações silenciadas. Ao reduzir esses eixos a uma "reflexão voltada sobretudo para o próprio mundo acadêmico", você pratica epistemicídio. A necessidade de ser "inicialmente decolonial" surge da urgência de Sulear o pensamento, rompendo com os universalismos alienantes que inundam à universidade.


Ao acusar a decolonialidade de "idealismo", você ignora a Economia da Libertação. Franz Hinkelammert produziu uma crítica demolidora à "idolatria do mercado". Euclides Mance sistematiza a Economia da Libertação como uma alternativa material que desintegra a lógica da dependência. Jung Mo Sung revela o caráter teológico do capitalismo monopolista. Isso se soma à Teoria Marxista da Dependência de Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra, que provaram como a Superexploração do Trabalho sustenta o centro de poder. Há nestes autores e autoras não uma, mas diversas teorias do monopólio, algumas alinhadas às de Marx, inclusive.

4. O Epistemicídio e o "Sulear" do Pensamento

O verdadeiro "FMI universitário" reside em nossos próprios programas de pós-graduação, onde muitos pessoas ainda agem como "papagaios" de gabinete. Como apontam Antonio Joaquim Severino e Natatcha Romão, a visão tradicional do filosofar como universalidade eurocêntrica é um paradigma vinculado à logosfera euro-ocidental que se impôs globalmente. O distanciamento de nossa produção é um ato de epistemicídio. Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez  denunciaram esse silenciamento que atinge corpos negros e indígenas.


"Sulear" o pensamento é estabelecer um diálogo com nossa própria produção epistemológica em busca de uma educação libertadora. A decolonialidade denota um caminho de luta contínua. Sei que você centrou seu esforço do texto de blog à criticar apenas um pequeno bloco do que ficou mais conhecido como Pensamento Decolonial, mas parece ignorar que muito mais que um movimento restrito e fechado a poucos autores e autoras de EUA e Índia, a decolonialidade é uma forma de vida, que parte das lutas, que também está em diversos campos do saber, como nas Teologias (Gutiérrez, Boff, Gebara), na Sociologia (Fals Borda) e na Psicologia (Martín-Baró). A libertação não espera pelo aval de universidades anglo-saxãs; ela já acontece nos quilombos de Aqualtune e nas teses daqueles que buscam o "Inédito Viável" (Paulo Freire).


Talvez, a partir de Marx, que não por acaso fez questão de não se afirmar marxista, você possam dialogar com o pensamento decolonial, e compreender que para este, em geral, é tempo de deixarmos de ser o que não somos e nos libertarmos do espelho eurocêntrico que distorce nossa imagem. Você demonstra perceber o que está ocorrendo neste momento, a realidade pro-vocando à pensar desde o chão em que pisamos e que a universidade sirva para a realidade onde está. No seu texto percebe-se uma certa angústia (Agonia - escrevi um texto sobre) em ver a ameaça ao cânone que hegemonicamente perdura há décadas nos cursos de "Ciências Humanas" das Universidade Brasileiras. Talvez isso lhes tire um pouco do conforto de tentar aplicar as mesmas fórmulas europeias à realidade latino-americana, que cobra outros métodos, outras formas de saberes... A filosofia, mesmo na Europa, guarda suas particularidades em Alemanha, França, Inglaterra...Por que aqui haveria de ser diferente? Será que não está no momento de ocuparmos os cursos de Ciências Humanas (graduação e Pós) da Universidade Brasileira com saberes, pensadoras e pensadoras, que brotam da realidade brasileira e propuseram-se e propõem-se a pensar os problemas brasileiros? Será que não precisamos partir de nossa realidade, para forjarmos nossas próprias teorias por ela clamadas? E bem sabemos que se ousarmos fazer isso, virá o momento de crítica, e sem nunca termos abandonado pensadores europeus e resgatado pensadoras europeias, também poderemos trazer pensadores e pensadoras de outras regionalidades, de outras correntes de pensamento, fazendo da UNIversidade verdadeiras PLURIversidades, buscando na pluriversidade teórica soluções plurais para nossos problemas complexos, ousando trilhar novos caminhos.


Atenciosamente,

Hugo Allan Matos

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