top of page

Do vazio que te parte


Esta escultura: Melancolie, de Albert Gyorgy está na Suiça, como sabemos um país que mantém o Estado de Bem Estar Social, onde não há pobreza. É o único país do mundo que tem democracia direta.Para muitas pessoas, um paraíso terrenal.

Por que então, esta escultura ali? Para nos lembrarmos de algo que em nossa cultura tupiniquim Raul Seixas lembrou na música Ouro de Tolo e que em diversas culturas encontramos na arte manifestações com sentido idêntico ou próximo ao que estas duas obras aqui nos trazem: o sentimento de incompletude, de infelicidade, de insatisfação permanente...Este que parte a mim e a você. Parte porque nos divide, limita, encerra...Nos bate à cara o quão pequenos, insgnificantes, imperfeitos somos. O quanto não somos nada e não sabemos de nada. Por mais que signifiquemos, saibamos ou tenhamos. Sentimento de imperfeição-incompletude este partilhado pela humanidade. Mesmo as culturas comunais para as quais nada falta. Por que valorizam o pouco, a integração com a natureza e com a humanidade, mas ainda assim, os ritos para alimentar esta incompletude que parte cada pessoa e a todas são fundamentais para a vida.

Emmanuel Lévinas, filósofo lituano-francês, com sua filosofia da alteridade, nos revela esta incompletude como o Desejo do Infinito qual o professor Benedito Cintra tematiza de forma maestral. Este desejo do Infinito, segundo Lévinas em sua obra Totalidade e Infinito, é o desejo da relação com o Outro, qual se alimenta, mas nunca se satisfaz. E a forma de alimentarmos este desejo é nas relações de alteridade com o outro, que nos humaniza, por evidenciar nossas próprias limitações, nossa pequenez. Pequenez esta que apesar de tudo, possibilita que transcendamos nossa totalidade. Ou seja, a partir de nossa dimensão biológica, comungada com todos os seres vivos, teríamos uma segunda dimensão que é a dimensão da satisfação das necessidades qual, regada da dimensão simbólica-social, nos permite o sentimento de felicidade. Há, em totalidade e Intinito toda um cuidado numa descrição metafórico-poética da passagem do Eu para um Si. O Eu, animal, que na separação com a totalidade ("mundo exterior"), ao distinguir suas necessidades e satisfazê-las, percebe-se só. Aqui está "Melancolie", "ouro de tolo", o vazio existencial, o desejo do infinito. O vazio que parte a mim e a você. A "maturidade" de perceber que mesmo tendo todas as satisfações de todas as necessidades, ainda existirá este vazio. É é simples, na lógica da alteridade, perceber o motivo: o Desejo do Outro não pode ser satisfeito por coisas. Mas na relação de respeito à alteridade. E o que é esta relação? Antes de responder, é preciso perceber algumas questões: somente o ser feliz (que percebe que pode satisfazer suas necessidades e aqui a ética de Epicuro pode nos ajudar muito a fazer uma distinção das necessidades e como obter prazer de forma "saudável") pode chegar a este estágio de percepção de que nunca bastará. Nunca será o bastante. Nada ou Ninguém poderá satisfazer o Desejo que nos move. No máximo, alimentá-lo. Humanizar-se, viver bem, seria conseguir equalizar esta tensão, numa lógica própria, qual equalizar, significa jogar-se ao Infinito, ao desconhecido, ao mistério que é o Outro.

Importante perceber aqui que o conceito de alteridade de Lévinas nos traz uma visão materialista como base. É a partir da base econômica, do cuidado da casa (e do corpo), que é possível ser feliz. E que ser feliz não basta. A resposta ao Desejo do Infinito, que nos move, é a infelicidade do ser feliz. Ou seja, nos humanizamos não na satisfação de nossas necessidades, pelo contrário. Ela nos totaliza no Eu egoísta, em um ateísmo como separação do "mundo exterior", numa auto-totalização do Eu. Fundamental dizer que esta é justamente a base do Liberalismo, fundamento do modelo de Estado moderno e ideia essa que permeia todas as nossas relações sociais. A busca por uma liberdade irrestrita, por querer fazer o que quer, como quer, quando quer, por exemplo, se revela como infantilidade de um ente em totalização, em desumanização. Este fechamento do Eu como indivíduo, do Eu feliz, livre, é justamente o ideal de pessoa bem sucedida qual permeia nossa sociedade contemporânea.


A humanização está justamente em romper com esta totalidade, para ser humano e humanizar-se, preciso transcender a mim mesmo. Preciso assumir a "infelicidade do ser feliz" e lançar-me rumo ao Outro. Este lançar-me, contudo, não é o jogar-me de um suicida, camicase, mas daquele que ciente de que sua humanidade está na relação de respeito à alteridade do Outro e respeitando o Outro de si mesmo, ser capaz desse respeito, da Solidariedade (como agape).

Enrique Dussel dá um passo além neste esquema, dizendo que esta passagem de um Eu para um Si, ainda é demasiado abstrata. Que a transcendência de um Eu é para um NÓS, resgatando à comunidade originária e rompendo radicalmente com esta lógica do indivíduo. Resgatando a mesma lógica das éticas anti-hegemônicas, desde o Livro dos Mortos, por exemplo, que é um dos códigos éticos mais antigos de que temos notícia, é possível perceber que as sociedades comunitárias têm como código ético o compromisso com aqueles, aquelas que mais sofrem. A viuva, os idosos, as crianças, os famintos, os que tem sede, fome, etc...E portanto, a base econômica, princípio material é o início de qualquer ética possível e pode ser sintetizado como: princípio da vida. Prevê a responsabilização de cada pessoa e de todas as pessoas com todo aquele, aquela que sofre, em primeiro lugar, os que mais sofrem, por terem suas condições mínimas de vida negadas.


Por que devo respeitar à alteridade do outro? Este dever, que classificaria esta ética como uma deontologia, na perspectiva ocidental, não o é. É uma perspectiva outra. Poderíamos dizer que é uma metafísica (imanente-transcendente) da alteridade. Imanente porque o Desejo, está em nós, em nossa corporeidade é intrínseco à nossa condição existencial. Transcendente porque responder ao clamor deste Desejo, que vem do rosto do outro, é transcender-se a si mesmo rumo ao Infinito. Infinito este onde não há garantias, não há certeza, não há a primazia da razão...Infinito este que é o amor, mas não qualquer amor, o amor da gratidão pela vida, da resposta a esta gratidão, no contemplar a beleza da criação e do Outro, na relação com o outro que como diz Sartre, é meu inferno, pois me faz encontrar com meus demônios internos e confrontá-los, um a um, sabedor que esta batalha nunca termina. Colocar-se em caminho de libertação então, seria isso. Ter a coragem de confrontar seus próprios demônios, jogando-se rumo ao Outro, na relação de amor com o outro que não é, geralmente, nada harmônica. E sabendo disso, aceitar a isso é humanizar-se.





Posts recentes

Ver tudo

Comments


Post: Blog2_Post

Formulário de inscrição

Obrigado!

©2018 by Vivosofando. Proudly created with Wix.com

bottom of page