Opinião: Sobre o MES, PSOL e a Necessária Política
- Hugo Allan Matos
- 25 de abr. de 2022
- 6 min de leitura
Quero antes dizer que tenho um profundo respeito por quem se dedica à política de esquerda e no PSOL hoje, independente da corrente ou força política que milite, tenho colegas e amigos em diversas, antagônicas, inclusive ao que acredito. Mas não poderia deixar de me expressar dado que isso de fato, afetou-me....
Após um longo processo de liquidificação (união de várias correntes e grupos políticos de diferentes tendências em um só), o MES me deu uma esperança de que o PSOL fosse se voltar mais à esquerda e apresentar-se à sociedade brasileira como um partido alternativo, com projeto político anticapitalista e como novidade histórica política que pudesse aglutinar forças para romper com a lógica da corrompida e corruptora política moderna, liberal, burguesa e capitalista. Engano meu.
O que presenciei foi que a segunda maior força do partido em geral, manejou um golpe contra a base do partido, contra sua militância, de forma igual ao apoio irrestrito à chapa lula e Alckmin já no primeiro turno. Dizem serem pré-decisões, mas que sabemos quando são pré-ditas por quem manda no partido são decisões já tomadas).
Atordoado, sem entender bem, fui procurar saber e conhecer os motivos. Todos giraram em torno da nota[1] que foi publicada – depois de vários dias do anúncio da decisão – vejamos:
Toda a justificativa sobre este golpe gira em torno de diversos e complexos aspectos, dos quais quero comentar apenas alguns:
Na política temos de ser concretos. Não se analisa desejos, mas a realidade. Diante da legislação, o PSOL tinha uma primeira decisão a tomar: é ou não é importante a superação da cláusula de barreira?
A concretude aqui buscada a realidade analisada e os desejos desprezados são de quem? O que mais tenho percebido ser questionado é a forma que as decisões foram tomadas, aliás, tema que o MES diversas vezes questionou as direções do partido, pela falta de participação da militância nas decisões. A decisão sobre federação foi tão antidemocrática, mesmo internamente no MES, quanto está sendo a de apoio a lula-Alckmin no primeiro turno. Parece que muita gente no MES não consegue perceber que política é relação entre pessoas. E a forma que nos relacionamos importa muito. Criticar negativamente algo e agir igual não é só falta de coerência política, como demonstra certo desprezo pelas pessoas envolvidas no caso, soa como um: “faça o que digo e não o que faço”, não soa? O próprio diagnóstico sobre a concretude e realidade ignora totalmente os anseios e desejos não só da militância em geral, mas especialmente aos do povo. Diagnóstico este que explicita suas intenções, no seguinte trecho:
Fora a Federação com a Rede, restaria como alternativa a federação hegemonizada pelo PT (com PCdoB e PV). E é tendo essa única outra possibilidade em vista, na análise concreta, que defendemos que é um avanço que se tenha firmado a Federação com a Rede, pois o risco a que o PSOL está exposto é de passar a ser um “partido da ordem”, passar a ser parte de sustentação de um regime em crise.
Em nome da concretude, da realidade, contra a análise dos desejos, pela cláusula de barreira e não ser um “partido da ordem” e nem estar na marginalidade. Aqui está explicitamente exposto um pragmatismo político que antecede, que coloca antes a importância de permanecer na ordem aos princípios, já que uma federação com os partidos de esquerda mais próximos ideologicamente ao programa do PSOL, ou seja, PCB, UP, PSTU... sequer foi cogitada. Este pragmatismo é uma forma de ação. Ele exterioriza valores muito caros na política. O pragmatismo da Realpolitik, um termo acadêmico alemão para expressar: aquilo que tornou o PT como o conhecemos e originou o PSOL. Mas, claro, o PT, PCdoB e PV são muito diferentes da REDE, apesar de receberem apoios dos mesmos grupos financeiros, motivo de críticas de décadas no PSOL e no MES. Pessoas foram expulsas do PSOL por receberem apoios destes grupos. O PSOL nasceu para ser alternativa ao PT, mas por diversos motivos que vão se explicitando na história, apesar de um programa político bem firmado, o PSOL vai mostrando na prática que não é tão diferente do PT. O medo de se tornar marginal, o medo de tornar-se um partido da ordem, talvez expressem apenas desejos, como em atos falhos, que a todos do partido importam. Se algo que aprendi lendo Marx me tocou muito e eu gostaria que tocasse a estes companheiros e companheiras é que o critério, em última instância é a práxis.
Mas, a confiança nos apoios da REDE em eventuais embates políticos na Câmara me parece, de fato, surpreendente. Situa a REDE na esquerda e menospreza o poder de influência política de Randolfe Rodrigues.
E é exatamente para essa batalha que a Federação com a Rede é positiva. A presença da Rede na Câmara pode aumentar a margem de manobra dos parlamentares da esquerda partidária, especialmente se contar com a presença de nomes como Joênia Wapichana e Heloísa Helena. Se ambas não compartilham do nosso projeto em sua integralidade, também é verdade que tem muitas posições à esquerda do que será o novo governo (só não entende assim quem se ilude com o que será um governo Lula-Alckmin). É verdade também que Randolfe Rodrigues é parte da coordenação de campanha de Lula, mas não representa um perigo adicional ao PSOL, uma vez que a sua posição já é representada pelo bloco “PSOL Popular”.
É impressionante que o MES não perceba o tamanho de sua contradição e incoerência. Ou talvez, seja impressionante que eu não perceba que ele sabe muito bem. O expresso medo do risco de adaptação do PSOL parece querer fixar o PT como o inimigo comum do campo de esquerda. É quase como a “carta ao povo brasileiro” pela qual lula acalma o neoliberalismo pactuando-se com ele, mas querendo ao mesmo tempo, permanecer com a confiança das esquerdas...Interessante também querer ainda se fixar no campo da esquerda partidária, querendo justificar sua posição jogando a responsabilidade de tornar-se “da ordem” ou não, em ter candidatura própria e participar do governo lula. Obviamente, percebe que a Federação com a Rede, para vencer a cláusula de barreira é já sacrificar princípios para permanecer como partido da ordem, certo?
Como já afirmamos em uma série de publicações, compartilhamos com as organizações da esquerda do PSOL a mesma avaliação: o PSOL está sob forte risco de adaptação, risco representado concretamente pela relação que o PSOL estabelecerá com o possível próximo governo Lula-Alckmin, um governo de caráter burguês. Não pode restar dúvida de que esse é o projeto de parte da direção majoritária do PSOL, representada pelo bloco “PSOL Popular” (Primavera e Revolução Solidária).
Em primeiro lugar, a disputa pela candidatura própria do PSOL, tema fundamental para a defesa de um programa que aponte para o futuro, colocando como tarefa “número zero” para os socialistas a necessidade de derrotar Bolsonaro, mas apontando que não basta, para derrotar a extrema direita, a derrota eleitoral.
A candidatura própria, com o caríssimo companheiro Glauber, não justifica ou ressuscita o princípio assassinado. Agora, além de fazer a análise e diagnóstico, impor a forma política a seguir, o MES quer pautar toda a esquerda partidária, elencando e enumerando as tarefas a serem cumpridas para derrotar o Bolsonarismo e a extrema direita, que se resumem em seu antipetismo formal – quando na prática agem como o PT – e salvar o PSOL.
Sou novo na vida partidária. Mas a política faço desde minha mais tenra idade, desde os 14. A política que me importa, na marginalidade, do Bem comum, da criação e fortalecimento do poder popular a partir da educação e formação políticas. Mas alguns dos ensinamentos políticos mais caros que trago são os que me ensinaram minha mãe e que coincidem em muitas coisas que li em Marx, Rosa, Dussel, Paulo Freire, hooks, Racionais Mcs, facção central... Minha mãe sempre dizia que a palavra tem vida. O que você diz, afirma, diz defender, te segue onde você for. Por isso, sempre o certo é aquilo que você diz acreditar e deve agir de acordo. Custe o que custar.
O MES parece não perceber que o PSOL poderia representar de fato, uma alternativa política. Alternativa quer dizer diferente. Se estará na ordem ou não, não depende do contexto e das crenças pessoais ou de um grupo que se quer empurrar a todos como “a realidade”, desprezando desejos. Não faltam teorias hoje para mostrar o quanto os desejos são decisivos e encarnados na política, certo?
Plínio de Arruda Sampaio sempre dizia que a Política com P maiúsculo é aquela que se faz com princípios, concretizando-os na ação. E quando se abandona os princípios, parte-se para o pragmatismo, para o vale-tudo da política moderna, liberal, burguesa.
Penso ser necessária uma força política que se apresente como alternativa anticapitalista ao povo. Com certeza, não temerá a marginalidade, não trairá seus princípios e não desprezará os desejos de sua militância e do povo. Não trairá um princípio sequer para permanecer na ordem que diz combater. Esta agirá com cada pessoa, em todos os momentos de suas práticas com coerência, será uma força que manda obedecendo, não tomando sequer uma decisão sem consulta às suas bases e quando errar terá a humildade de consultar e desculpar-se com elas, lembrando-se sempre que o serviço político tem como finalidade o serviço ao povo.
Esta força está por nascer e provavelmente não será um partido político na ordem capitalista.
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