Voltar para a base: um bonito imperativo que pode ser falacioso e opressor
- Hugo Allan Matos
- 27 de nov. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de out. de 2019
Ao ler: "Ouça mais Racionais e pague melhor os seus funcionários" de João Brizzi no The Intercept (https://theintercept.com/2018/11/16/escute-racionais-pague-melhor-autocritica-imprensa/) apesar de concordar com quase tudo, partilho algumas inquietações. E apesar de o post ser voltado, ao que parece, para o meio jornalístico, quero generalizar a discussão.
Hoje: voltar para a base tornou-se um imperativo. Serve para tudo! Parece ser a solução mágica para todos os erros que o campo democrático possa ter cometido em nossa recente histórica pós-ditadura.
Entretanto, eu como acompanho o movimento hip-hop desde a febre das "equipes de som", no final da década de 1980 e como desde os 14 anos (1994), faço parte de movimentos eclesiais, populares e sociais, ou seja, nunca saí "das bases" o problema me parece mais complexo. E quero apontar algumas características aqui, para um início de conversa.
Concordo com tudo o que João disse em seu texto, repito. Mas, me parece que falta situar o problema. Não foi todo mundo que saiu das bases e deixou-se aparelhar pelo PT. Havia um campo amplo, diverso e aguerrido que continuou, inclusive fazendo oposição ao Partido dos Trabalhadores. Há inteletuais e surgiram nov@s inteletuais, de diversas correntes de pensamento ou "outsides"(independentes) que continuaram construindo teorias junto às bases. Dialogando com o Rap e com as culturas populares.
A questão me parece ser: quem quis saber? O processo desde a Queda do Muro de Berlim e o desencanto socialista real, suscitaram novas dicussões, marcaram definitivamente o início de uma nova realidade: a crise da modernidade enquanto modelo de cultura ocidental. Não faltaram intelectuais engajad@s em escrever, falar, articular movimentos, inclusive junto ao povo. Mas, a esperança dependentista atrasada na possibilidade da melhora de vida mesmo dentro deste modelo de sociedade que já mostrara seu esgotamento. A massa em geral, e parte das pessoas conscientizadas, incluso intelectuais, acreditaram por um momento na possibilidade de um novo momento social, no qual a burguesia, enquanto classe social dominante "abriria mão" de um domínio opressor em demasia para uma redução das desigualdades, maior equalização social, que haveria um diálogo de classes. Lula e a hegemonia do PT - e movimentos filiados - parecem ter acreditado nisso.
Os resultados foram estes quais estamos assistindo. O que permitiu que isso ocorrece? Por parte "de cima" acreditar numa Nova Ordem Mundial a partir dos Blocos Econômicos alternativos como o BRICS, MERCOSUL, etc. Ou seja, acreditar que EUA e países Eurocêntricos - conceito geopolítico - como China, Russia, etc. aceitariam abrir mãos da hegemonia política mundial para uma nova política mundial que admitisse uma diversidade de centros, como era antes da modernidade-unicentral. Acreditaram que aceitariam o fim do domínio eurocêntrico e a libertação política-econômica do "Sul" (América Latina, África e Ásia).
Já a massa, o povão, a maioria das pessoas que estão muito ocupadas com suas vidas de pagar contas, acreditaram e continuam acreditando que esse modo de vida é uma fatalidade. Que precisam esforçar-se, como pobres, pret@s, mulheres...Precisam esforçar-se duas, três vezes mais, para poderem ter o mínimo de vida digna. De alguma forma, foi isso que grande parte da "cultura popular" qual João Brizzi parece fetichizar, sempre disse para fazer. Grande parte das letras dos Racionais MCs e da maioria dos rappers, ensinam isso. Eles ajudam a manter o status-quo, ao corroborarem o consumismo crescente e à manutenção da ordem atual das coisas. E como culpá-los? A grande maioria não têm grande formação teórica, aprenderam com a vida. E indiscutivelmente colaboraram muito para o avanço da consciência ética em nosso país, do empoderamento negro. Mas, como toda cultura popular, têm contradições, quais apenas pessoas com um olhar "treinado" podem perceber, discutir, trazer à tona. Apenas estudos metodológicos, rigorosos, científico-filosóficos podem fazê-lo.
Enfim, não adianta apenas ir às bases. Tem muita gente nas bases fazendo merda. E são tão responsáveis pela evolução da extrema direita, quanto os academicistas, que trancados em suas pesquisas e livros, alienaram-se do mundo da vida. "Voltar para a base" está tornando-se uma expressão como: "vai estudar". Serve para tudo. E quem nunca saiu da base? Grande parte das esquerdas, inclusive dos meios de comunicação progressistas, funcionam por círculos fechados. Não lêem, ouvem, dialogam fora de seus mundinhos fechados. Fetichizaram teorias e concepções de mundo, partidos políticos e movimentos. Não conseguem relacionar-se com nada que não reflita seu próprio Ego.
Assim, penso que tanto na política institucional, quanto nas bases, fica ainda mais necessária hoje, a boa e velha práxis, a prática mediada pela teoria e a teoria mediada pela vivência do mundo, junto às pessoas, buscando diálogo verdadeiro e aberto às necessidades desse novo tempo.
Ouça também Racionais, mas nunca dispense Beethoven. E se tiver funcionári@s, não só os pague bem, mas propicie para que alcancem condições dignas de vida a el@s.
Indico o livro de Peloso: trabalho de Base.

Comments