Sobre o identitarismo e a esquerda brasileira
- Hugo Allan Matos
- 17 de jan. de 2022
- 4 min de leitura

Há mais de uma década falo sobre os perigos do identitarismo, desde quando era -espero que já não seja mais - um pecado falar contra este aparente milagre da política.
Assim como o advento da nova classe média - endividada - a afirmação das identidades sistematicamente negadas na história de nosso país ainda hoje é pauta principal de diversos movimentos e partidos políticos que se auto intitulam de esquerda. Indígenas, negros, mulheres...Todas as lutas centraram-se à inclusão, acesso, poder de compra, consumo...Os movimentos sistematicamente foram adequando-se e gostando das benesses deste modelo de sociedade. O Governo da Inclusão trouxe a paz para uma construção política de mais de 30 anos. As reivindicações foram todas submetidas ao partido, ao governo e aos movimentos alinhados. As críticas querem mais inclusão e representatividade.
Afirma-se a necessidade da mulher negra na propaganda de shampoo da empresa que

sistematicamente ha décadas explora seus trabalhadores e trabalhadoras. A participação do negro não mais como escravo, mas como dono de empresa na novela global. A empregabilidade de negros e indígenas nas empresas multinacionais em cargo de gestão. As políticas públicas para que as empresas privadas sejam "obrigadas" a utilizar o dinheiro público para dar bolsas de estudo para o pobre, negro, indígena, LGBTQIA+...Intelectuais negros que teorizam contra o racismo, tornam-se funcionários da empresa que mata negros em seu interior...
E assim, vão se vaporizando qualquer possibilidade de críticas estruturais, a esquerda adequa-se à ideologia neoliberal, afirmando combatê-la, fortalece seus princípios individualistas quando afirma que é uma vitória coletiva quando a negra e pobre (uma dentre milhões) consegue um emprego.
Besteira! Não podemos mais aceitar este engodo! Estamos sendo engolidos, engolidas! Nas últimas 2 décadas, quais foram os avanços reais coletivos que a soma de todas as políticas públicas e pautas de movimentos e partidos fundamentados nas identidades nos trouxeram? NENHUMA! A ponto de picaretas, marginais, milicianos entrarem no poder do Estado Brasileiro e com poucas canetadas e algumas twitadas colocarem todo o conjunto das forças de esquerda nos bolso! Pautam as "lutas" que ficam implorando migalhas dentro de uma estrutura determinada, viciada, corrompida a partir da qual nada pode ser mudado.
Ou "todos estão surdos" ou corrompidos ou cansados demais para falar sobre isso. É preciso rasgar o silêncio.
E por favor, não me venha com: pergunte aquela pessoa que não comia e agora come o que ela acha disso...É exatamente este o problema ela não comia e estava revoltada e agora come lavagem e está domesticada...
É preciso alterarmos as estruturas econômicas, sociais e culturais, mudar o Estado desde nossa realidade. E começa pela subsistência econômica, que vai gerando fluxos culturais e sociais críticos.
Se não fizermos isso, continuaremos sendo engolides!
Complemento posterior:
Após ler o indicado artigo de Vladmir Safatle, intitulado identitarismo branco, decidi escrever um pouco mais sobre o tema, apontando um pouco das fundamentais que tenho encontrado a partir da pesquisa de doutoramento...
Identidade é uma abstração conceitual utilizada para unir pessoas de características diversas sob um ideário, um conjunto de ideias e características, massificando sua representação. Por exemplo, ao dizer branco, indígena, negro, mulher... nos vêm uma ideia do que seja cada uma dessas identidades, mas desconsiderando todas as alteridades envolvidas em cada pessoa que possa ter em comum um determinado número de características.
Nesta série de vídeos sobre a crise estrutural da cultura ocidental falei um pouco do Encobrimento, negação e aniquilação das alteridades na cultura Greco-Ocidental. Desde Grécia, passando pelo medievo, pelas modernidades até nosso tempo a negação das alteridades se dá principalmente pela afirmação de identidades. Por diversos processos e mecanismos culturais a cultura ocidental que hoje e impõe como hegemônica a nós, afirmou-se pela afirmação de uma cultura branca, patriarcal, excludente...Quando, no séc. XX outras identidades começam a afirmar-se, colocam esta cultura em crise. A resposta eficaz do neoliberalismo foi a inclusão. Um processo de manter sua exploração fundamental, mas de forma menos excludente, ou pelo menos de centrar sua exclusão em focos onde as pessoas possam ser excluídas e eliminadas.
O processo de gentrificação organiza a geopolítica contemporânea, intensificando ainda mais sua opressão, mas com maior inclusão, representativa inclusive, levando a uma culpabilização individual pelo fracasso daquelas e daqueles que não chegam lá. Assim, é hoje, fundamental ao neoliberalismo que tenhamos pessoas negras, indígenas, mulheres, LGBTQIA+... em posições de destaque e poder. Para que a grande população a que estes "representam", pessoa a pessoa, comece a perceber que a culpa de não chegar ao sucesso é exclusivamente dela. Eis o sucesso da representatividade!
É preciso inclusive, que estas pessoas tenham seu lugar de fala garantido e que possam inclusive falar criticamente! Ao neoliberalismo, não importa mais o conteúdo. Importa a forma. Pois o domínio formal, faz com que o conteúdo vire mercadoria a ser consumida. É importante manter a existência de movimentos que se dizem de esquerda e crítico, pois a aparência, o conteúdo democrático, legitima a forma totalitária dia a dia. Quando uma pessoa ou movimento passa do limite é prontamente eliminado quando não pode ser comprado. Os partidos que se dizem de esquerda prestam um grande papel neste sentido, pois depositando toda sua militância e esperança nas estruturas burguesas, fortalecem o sistema que dizem combater.
Então, para não parecer leviano, o que não posso agora ser mais profundo, este post fica só como um desabafo. Cerca de 20 anos de pautas fundadas no identitarismo e ainda não percebemos que caímos num engodo?
E com isso, obviamente, não nego um milímetro da história de domínio e opressão étnica, patriarcal, por uma branquitude que impõe-se violenta e simbolicamente como hegemônica. A crítica que faço ao identitarismo é porque a identidade é sempre instrumento de domínio e opressão, mesmo quando pareça que não.
Dentro da cultura Moderna Liberal Capitalista, não há possibilidade de dignidade para a maioria das pessoas. Então, inclusão, conquista e alargamento de direitos, representatividade, lugar de fala... são aquilo que o neoliberalismo mais gosta e precisa para se perpetuar.
Ou tenhamos claro que ser de esquerda é querer outras formas de mundo não modernos, não liberais e não capitalistas, onde a maioria das pessoas (e idealmente todas) tenham possibilidade de vida digna garantida, ou assumamos com Fukuyama que a História acabou e somos todos Modernos, Liberais-Neoliberais e Capitalistas.
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