Sobre o Corona Vírus, sua medíocre, escassa e superficial vida cotidiana e a geopolítica mundial
- Hugo Allan Matos
- 15 de mar. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de mar. de 2020

Agora não é o momento de dizer: tem gente previnindo algo assim há séculos e não demos a devida importância. Tampouco de surfar na onda para tirar proveito político. Se o título desse texto lhe pareceu ofensivo, perdoe-me, não foi a intenção. Mas também não me parece ser o momento de meias palavras, cortesias excessivas, "passar pano" para ninguém. Estou incluso aqui.
Não quero falar-lhe da importância de cuidarmos socialmente da transmissão do vírus, o isolamento, nesse momento, parece ser a melhor solução, entenda alguns porquês biológicos aqui nesse vídeo:
Além dos motivos biológicos, posso ainda dar-lhe alguns motivos sociais, quais você poderá compreender aqui: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51703189
Sinalizadas estas questões fundamentais, quero agora chamar à atenção um aspecto que a cada dia suscita maior interesse nesta pandemia: a geopolítica mundial que inclui nossas vidas cotidianas. E farei isso a partir de perspectivas filosóficas já manifestas sobre o assunto.
Há algum tempo, a partir das filosofias de Enrique Dussel, Emmanuel Lévinas e outr@s filósof@s tenho trabalhado o tema do fim do modelo de civilização greco-ocidental, como você pode verificar em meu canal no youtube:
Entretanto, esta reflexão ficava geralmente marginalizada, dado que ainda parecia necessitar de uma sensibilidade que não estava disponível a tod@s. Agora está. Se algo de positivo nesta catástrofe do #covid19 - implantado ou não - pode estar ocorrendo é a evidenciação do fim deste modelo de sociedade, insustentável em todas as suas dimensões.
Nesta entrevista com o filósofo Bruno Latour em razão do lançamento de seu livro: Down to Earth. Politics in the New Climatic Regime (traduzido generosamente a meu ver, na entrevista como: Com os pés no chão. Política no novo regime climático, em tradução livre, tradução mais adequada penso eu seria: Terra abaixo: ..., como disse em facebook minha amiga Janys Oliveira, numa tradução criativa, à la Falcão, ou ainda como sugeriu um grande amigo, sempre polido Eliandro Felipe: De volta à Realidade...Na entrevista, o filósofo nos fala de uma angústia existencial qual nos coloca entre uma parcela da população que acredita que a humanidade como a entendemos deve ser superada e apostam - investem dinheiro e energias - na descoberta de outros planetas habitáveis em pesquisas da transformação do corpo humano em algo superior, mesclado com a tecnologia, etc. Esta é a pós-humanidade ou pós-humanismo. E outra parcela acredita em outra abstração de parecido teor: o Estado Nacional, o meu chão, o meu país, como se houvesse a possibilidade de retornar a um estado natural em que as coisas eram melhores enquanto Estado-Nacional (que nunca existiu). Você pode ter achado desnecessário começar este parágrafo questionando a melhor tradução, mas não é. Neste cenário, Nós, pobres mortais, que "sujamos às mãos" todos os dias com a realidade: essa que se nos impõe, que lidamos diariamente, em nossa medíocre vida com os limites ambientais, biológicos de nossos próprios corpos e do planeta, lidamos com a escassez de recursos e catastróficas desigualdades econômicas, sociais e políticas, nós olhamos para este cenário e sabemos que é só uma consciência comunitária, coletiva, da importância da coisa pública, compartilhada é que poderá nos libertar dessas abstrações emburrecedoras e diabólicas - no sentido estrito da palavra, de causar separações - onde as notícias falsas adquirem o mesmo valor cognitivo das verdades.
Outro artigo chamou-me a atenção. Juan Arias escreve: "O coronavírus revela que éramos cegos e não sabíamos".

No artigo Juan, a partir de o "Ensaio sobre a Cegueira" de Saramago, nos apela à sensibilidade de sentirmos que
...“somos cegos que, vendo, não veem”. Descobrimos, como uma luz que acende em nossa vida, que éramos cegos, incapazes de apreciar a beleza do natural, os gestos cotidianos que tecem nossa existência e dão sentido à vida."
O articulista em outro trecho, com ênfase, nos diz:
Às vezes abraçamos, beijamos e nos movemos em liberdade sem saber o valor desses gestos que realizamos quase de forma mecânica. Quando os pais sentem às vezes, no dia a dia, o peso de terem que levar as crianças ao colégio e as deixam lá com um beijo apressado e correndo, mecânico, apreciam, depois do coronavírus, a emoção de que seu filho te peça um beijo ou segure a sua mão. E apreciamos a força de um abraço, do tato, de estarmos juntos apenas quando nos negam essa possibilidade.
É triste perceber como para muitas pessoas esta reflexão não faz sentido algum. Estão mortas. Cederam sua humanidade a uma vida mecanizada, tecnicizada não só pelo smartphone que já faz parte de seu corpo. Mas pela virtualização de sua presença, pela tecnicização de seu aperto de mão, beijo ou abraço. Muitas já não gostavam e faziam por "obrigação". Os afetos, que nos humanizam, legaram-se à técnica. Há milhares de pessoas que estão agradecendo o isolamento por causa do Corona Vírus. Outras que caçoam dele e alegram-se em dizer que só mata velhos e pobres. Só uma gripinha. O Sarampo é tão perigoso quanto! Há instituições que negando todas as recomendações, não querem perder dinheiro e/ou fiéis e não param suas atividades. Com todos os males, quais ressaltei no início desse artigo, o covid19 nos deixa uma oportunidade ímpar:
O título de outra reflexão sintetiza um pouco do que tenho pensado, há décadas, e que agora parece mais paupável, factível: Estamos numa posição de ter uma página em branco para um novo começo" Este artigo, partilhado por Angela Zamora, outra amiga, nos dá uma dimensão concreta da situação. A filósofa Li Edelkoort atribui esta possibilidade ao Corona Vírus, mas nosso período, da transmodernidade, já anuncia essa página em branco, qual em verdade, não permanece como tal, já está sendo escrita desde o presente, com as características que a mesma anuncia:
Parece que estamos entrando maciçamente em uma quarentena de consumo, onde o impacto do vírus será cultural e crucial para a construção de um mundo alternativo e profundamente diferente
O Corona pode ter radicalizado esta condição, contudo, a insustentabilidade do sistema já há muito, pelo menos desde a crise de 1929, se impôs e tudo o que temos feito desde lá, foi a tentativa desesperada de salvar este modelo de sociedade que ano a ano vêm se degradando e arrastando à humanidade a seu fim, pela imposição totalitária da técnica, como anuncia Heidegger em seu texto comemorativo: Serenidade. Em sentido próximo, indico ainda o artigo publicado pela Unisinos: O coronavírus e os filósofos.
Pois bem, de todo o escrito acima, termino esta pequena reflexão, com uma percepção: a civilização greco-ocidental terminou como a conhecíamos. Suas bases estruturantes foram totalmente ruídas e nenhum projeto político, especificamente os modernos - da extrema esquerda à extrema direita - que aceleraram este processo, poderão salvar nossa cultura.
No presente momento, as soluções já estão nascendo, já estão em prática. E elas só podem vir das periferias do mundo, das margens que não se "contaminaram" ou que ainda guardam possibilidades civilizatórias Outras. Como diria Milton Santos, é tempo do demográfico, do popular. Lá onde ser humano é ainda uma exigência para a vida cotidiana e não se pode abdicar desta condição por abstrações conceituais e utópicas. Lá onde o abraço, o aperto de mão, o beijo, o afeto, o corpo, são exigências de sobrevivência, "códigos éticos e morais". Bem-vind@ à transmodernidade. O intervalo entre o que foi e o que será. Tempo do qual surgirão novas ideias, projetos políticos, economias que talvez permanecerão por séculos ou milênios. Tempo que só se efetivará se o entendermos e impedirmos que os totalitarismos presentes se extendam e erradiquem-nos enquanto humanidade. Tempo de cada um/a responsabilizar-nos politicamente, coletivamente, comunitariamente pelos rumos de nosso Planeta e de nossa humanidade. Romper a estrutural abstração de que somos indivíduos livres e inimigos em guerra - o homem é o lobo do homem - e entendermos de uma vez por todas, a profundidade do que talvez Aristóteles já tenha dito: o ser humano é um animal político. Tempo de entendermos que somos comunitários, afetuosos, solidários... e só assim nos realizamos em nossa humanidade...
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