Neoliberalismo de esquerda, identitarismo e apagar incêndios é isso que resta à esquerda?
- Hugo Allan Matos
- 30 de jan. de 2022
- 10 min de leitura

Não existe esquerda. Existem esquerdas. No plural. Faço questão de permanecer com o sentido clássico para o termo esquerda qual foi forjado na ante sala da Revolução Burguesa Francesa, com alguma atualização: de esquerda são todos aqueles e aquelas que atuam politicamente para que o modelo de instituições sociais, a cultura e/ou a economia política hegemônicas atuais se transformem. Esquerda radical - e/ou revolucionária - geralmente é o termo utilizado para classificar aqueles e aquelas que atuam para mudar o modelo de sociedade (modo de produção, o que inclui este tripé da economia política, cultura e instituições sociais). Obviamente estas definições não são estáticas e a depender do referencial teórico suportam alterações, mas são as que utilizo.
Esquerda até (1989) 2002
Bem definidos estes termos, penso ser interessante comentar sobre a história recente das esquerdas brasileiras e portanto, peço sua licença para generalizar, sabendo e considerando que há movimentos que podem ser considerados de esquerda, mas escapam desta caracterização. Desde o período que chamamos redemocratização que data dos meados dos anos 1980 até aqui - hoje me questiono se houve mesmo democratização ou apenas um pacto de submissão pacífica aos EUA - houve um acúmulo político que resultou hegemonicamente em uma

centralização de estratégia eleitoral no PT e na figura de Lula. Na década de 1980 até houve um forte trabalho de base, educação popular, etc. Houve discussões políticas, educação popular, criação e desenvolvimento de movimentos populares anticapitalistas, socialistas, anarquistas... que ousaram pensar e lutar por Outros Mundos Possíveis. Mas com a queda do Muro de Berlim (1989) e o congresso do PT, especialmente no rumo às eleições presidenciais de 1998, o descrédito com o socialismo e a estratégia -marketeira e corrompida- eleitoral se impuseram. Todo o trabalho de base até então foi direcionado para um projeto de governo. Apenas uma pequena cúpula de intelectuais muito próximos a Lula sabiam o que realmente estava ocorrendo. O discurso esquerdista e até socialista nunca deixou de ecoar, mas estas poucas pessoas mais críticas sabiam que junto com a estratégia eleitoral estavam optando por um projeto capitalista, que inevitavelmente teria caraterística neoliberal, mas alguns, desta cúpula, junto a Lula, sabiam que poderiam tentar um pacto neoliberal no qual as políticas neoliberais seriam implantadas, garantindo contudo, poder de endividamento, crédito às classes médias ao mesmo tempo que uma estratégia de pleno emprego, utilizando da máquina pública para "incentivar" empresas a continuarem aumentando seus lucros, sem gerar desemprego. Este foi o "milagre econômico" do primeiro governo de Lula. E do ponto de vista popular dentro de uma perspectiva capitalista, não foi ruim. O poder de consumo aumentou consideravelmente, praticamente erradicou a fome e o mais importante: aumentou exorbitantemente os lucros das empresas capitalistas. A construção de novas universidades públicas foi concomitante com a criação de conglomerados privados do negócio da educação - estratégias dúbias caracterizaram este governo -. Todo aquele capital político das décadas de 1980 e 1990 serviram para apoio e aparelhamento de um governo nas estruturas do Estado. Centrais sindicais, sindicatos e movimentos em geral, tornaram-se governantes do país e aqueles que ousaram criticar foram expulsos, cancelados e descartados. Assim é Lula. Assim foi seu primeiro governo. O segundo governo mostrou-nos uma lição que muitos desde a década de 1980 que não concordavam com a estratégia de tentar "mudar por dentro" já sabiam: o motor do capitalismo é a ganância. Não interessa o quanto os capitalistas lucram, sempre vão querer lucrar mais, não importando o custo social. Uma outra lição, qual já estava nos livros de um Pierre Bourdieu ou de um Paulo Freire: há diversos mecanismos de distinção de classe não são apenas o dinheiro e o poder. Classe média e rico não suportam dividir mesmos espaços com gente pobre. A gentrificação é um dos mais importantes critérios de distinção de classe. Lula e o PT não sabiam disso? Obviamente o segundo governo de Lula e o que veio depois foi a expressão da indignação das classes médias e dos ricos, utilizando-se delas, para impor sua ganância que não é só por dinheiro e poder, mas é também para sentir-se especiais, dentre outras coisas. E uma terceira e última lição que quero aqui pontuar, qual parece que ninguém ainda aprendeu - mesmo Jessé Souza, intelectual brasileiro dentre os quais mais admiro - é que as classes recebem a configuração e papel social histórico organizado pela economia política hegemônica em um território. E esta terceira não isenta as classes médias de quererem -ou sonharem- ser burguesas, e portanto, odiarem os pobres, mas nos ensina que é preciso bem ponderar estrategicamente o papel hegemônico que cada classe desempenha num determinado modelo de Estado e/ou modo de produção. No Estado moderno, liberal, capitalista, o papel das classes está determinado, é inerente, à organização das instituições sociais, ao desenvolvimento da política econômica e ao cultivo da cultura que o determinam. Ao optar por eleger-se e governar dentro do modo de produção capitalista, numa política neoliberal, tentando atenuar a natureza predatória, totalitária e genocida do neoliberalismo, seria fundamental trabalhar neste tripé - instituições sociais, cultura e economia política - para que esta tênue mudança fosse adaptada, alterando assim, o modelo de Estado e seu sentido político. Mas, não sabiam disso? Impôs-se o monismo Neoliberal. Nasce aqui uma "esquerda neoliberal". Daí que uma Tábata Amaral se dizer de esquerda parece fazer sentido. Assim como Lula. O Neoliberalismo quer acabar com a diversidade do espectro político ao colocar-se como única possibilidade. Então, há neoliberalismo da extrema direita à esquerda.
Houve e há resistências
Parte das esquerdas que foram percebendo o projeto, o aparelhamento do Estado, dos movimentos, foram rompendo, mas a hegemonia de todo o capital político de mais de 3 décadas, estava agora nas mãos do PT e estava em risco de serem subsumidos pelo Neoliberalismo.

A imagem à esquerda é de uma manifestação da esquerda em Junho do ano 2003, contra à reforma da previdência de Lula (leia aqui: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1206200302.htm). Simbolicamente é bom lembrar que 10 anos depois explodiria a última grande manifestação contra o PT, junho de 2013, onde foi dado um basta e a emergência de rompimento com a ordem atual se impunha. E mesmo assim não foi ouvida pelas esquerdas institucionais e teve, em grande parte, sua construção cooptada pela extrema direita neoliberal, que hoje governa o país. Houve resistência desde o início do primeiro governo, houve avisos de intelectuais e pessoas que haviam ajudado a construir todo o processo político e discordaram radicalmente do rumo adotado pelo PT e por Lula. Não ouviram. E como tiveram o apoio hegemônico de muitas das principais forças políticas, intelectuais e movimentos de esquerda do país, aqueles que ficaram fora deste processo, mas não deixaram de militar, decepcionados e desolados com os rumos, estavam agora tendo que iniciar um novo ciclo da esquerda brasileira. Aprendendo com toda a história, mas com o cansaço, o desânimo, o desalento ideológico da queda do socialismo real e da distopia trazida pela cultura neoliberal.
O Identitarismo e emergência de outras esquerdas e outras políticas
Novos movimentos, partidos e novas formas de militâncias estão sendo criados, movimentos mais adaptados à temporalidade - líquida - do neoliberalismo e aos anseios das novas gerações. Os movimentos culturais - étnicos e de gênero, especialmente - passam a hegemonizar às pautas das esquerdas ao lado das históricos e consolidadas - algumas já decadentes- pautas da classe trabalhadora, como reforma agrária, trabalho, CLT, educação pública e teto. As esquerdas que não fizeram a passagem, agonizam sob os ideais de uma Internacional Comunista, como se as teorias políticas e especialmente a forma de fazer política do séc. XX ainda possibilitassem a base necessária para

lutar contra o neoliberalismo. Mesmo percebendo a mudança da divisão internacional do trabalho advinda da presente 4ª revolução industrial e o próprio sentido do que seja o trabalho no neoliberalismo, os movimentos "trabalhistas" não acompanharam. Não inventaram novas formas de luta e resistência. As esquerdas em geral perderam o "tempo" - ou se perderam no tempo -. Para haver qualquer mudança estrutural em sentido anticapitalista esta mudança precisa ser pensada e praticada estrategicamente no tripé - social, cultural e político-econômico-. Neste sentido, que as pautas de representatividade e de lugar de fala, dentre tantas outras pautas que surgiram nos movimentos culturais, acabam por fortalecer o que dizem combater. A mudança cultural de haver pessoas negras, indígenas, mulheres, trans... em lugares de decisão e de destaque, sem que isso seja integralmente e estrategicamente acompanhado de estratégia política gerando fluxos de transformação das instituições sociais e da economia política, fortalecem as estruturas de exclusão do capitalismo. De outra forma: o que é uma identidade? Podemos pensar diversas definições e conceitos, mas todas elas vão concordar que uma identidade é no mínimo: uma abstração conceitual a partir de um conjunto de características para se referir a algo ou alguém. Quando digo negro, pobre, mulher, indígena, trans... estou clamando à imaginação de quem ouve um conjunto de características físicas, culturais, sociais... para me referir a alguém. Assim, podemos dizer que toda identidade resume, sintetiza o que uma pessoa é, num conjunto de características culturalmente trabalhado - inclusive no inconsciente coletivo - para significar uma pessoa. Comunista! A identidade comunista permite diversas significações. Mas desde muito, foram trabalhadas em nossa cultura brasileira, significações hegemônicas, quais servem para referir-se negativamente à pessoas e até clamar a morte delas. Negro! Mulher! Trans! Estas significações vão mudando ao decorrer do tempo e ainda que possam ser significações aparentemente positivas, podem servir ao domínio. Por exemplo: a imagem da mulher negra empresária em uma multinacional. Espere, aqui preciso abrir um parêntese importante, não quero ser hipócrita! "Dinheiro é bom, quero sim, se essa é a pergunta..." obviamente muito melhor que as pessoas que não podiam consumir, agora possam. Não é disso que se trata aqui. Esta é uma discussão teórica complexa, que tem desdobramentos na práxis política. A questão é que o acesso ao consumo no modo de produção capitalista é uma pauta de reivindicação capitalista e portanto, não de esquerda. E aqui quero chegar a uma das maiores discussões de Marx, que toma todo primeiro tomo - único escrito totalmente por ele - de O Capital: a questão do fetiche. Por trás da imagem da mulher negra empresária, há um imaginário de todo um modo de vida implicado. Assim que todos os movimentos de inclusão, representatividade, lugar de fala... que anseiam inclusão, dentro do modo de produção capitalista, servem, necessariamente para fortalecer este modo de produção e portanto, este modelo de vida, que continuará necessariamente, porque é sua essência, a oprimir à classe trabalhadora e a distingui-la da classe burguesa. Quando todas as pessoas negras, indígenas, pobres, mulheres... sentem o discurso: olha lá se um chegou, você também pode, você deve querer chegar lá, "levanta e anda", se não houver o complemento: você precisa coletivamente mudar este modelo de sociedade para que todes possam, este discurso vai oprimir. Imaginemos que hoje todas as pessoas ditas "minorias" que são na verdade a grande maioria da população, sejam incluídas e tenham o básico necessário para viver, ainda no modo de produção capitalista. "A classe operária vai ao paraíso?". Não! Primeiro que isso não irá ocorrer, volte duas casas. Os critérios de distinção de classe não permitem. Não cabem empregadas domésticas e empresários no mesmo avião. Assim, que identitarismo é inócuo. Afinal o que é o identitarismo? Estou aqui chamando de identitarismo o reforço da identidade como essencial, ou seja, como se a inclusão das identidades em determinado estado de vida pudesse ser a pauta de movimentos de esquerda. Não pode! Por que quando o capitalismo inclui um negro ele mata mais 10. E aquele negro que foi incluído, vai pagar por sua inclusão, de diversas formas, incluso psicologicamente. Por que o capitalismo é racista e branco por essência. Ele não mudará isso. A sociedade moderna, capitalista foi constituída para privilegiar apenas uma identidade - pesquise quais os três princípios fundamentais da lógica aristotélica, que foram utilizados como base para que em 1551-1553, na controversa de Valladollid, Juan Guines de Sepúlveda argumentasse que os povos "indígenas" aqui encontrados não são seres humanos-. Desde a cultura indo-europeia, passando pela cultura Grega Antiga, Romana, Cristandade Medieval, até chegar à modernidade. Cerca de 5.000 anos de construção cultural. O capitalismo é o modo de produção que privatiza os meios de produção hegemonicamente a homens brancos. Esta é sua identidade e essência. Não poderá mudar, porque todo o modelo de instituições sociais, a cultura e a política econômica estão organizados para isso. E com isso, obviamente, não quero negar, mas afirmar o racismo estrutural, o patriarcal, a branquitude e fortalecer as lutas contra eles, que NÃO serão exitosas se a identidade for a essência das pautas de luta, pois a identidade é um instrumento de domínio previsto na lógica desta negação... A cultura de um único Ser possível: o homem branco. (para compreender mais sobre o que penso a este respeito, assista meus vídeos sobre a Crise da cultura ocidental?)
Daí, que então, o próprio sentido de esquerda dentro do marco da cultura moderna (herdeira de mais de 5.000 anos de construção social) não nos serve mais. Todas as teorias, sim, inclusive Marx, estão cheias de machismos, patriarcalismos, branquitude, etc. Se queremos mesmo lutar por transformação, para derrotar não só o capitalismo, mas o modo de vida burguês-moderno, combatendo às colonizações e abrindo-nos para formas de vida (outras economias políticas, modelos de instituições sociais e culturais), precisamos de parar de secar gelo, apagar os incêndios do neoliberalismo, contentando-nos com suas esmolas e estrategicamente articular formas de lutas desde outras políticas. É preciso ler e aprender como pensaram os clássicos, mas principalmente seus críticos e essencialmente, aqueles e aquelas que estavam e estão de fora. É preciso forjar novas formas de conhecimento, novas teorias e práticas políticas. Quase todas as profissões que conhecemos hoje serão extintas em poucos anos e as centrais sindicais e sindicatos com todo o poder que ainda - por enquanto - detém, nunca pensaram em desenvolver meios de produção não capitalistas? - que eu saiba apenas a via campesina e MST o fazem - Sequer apoiaram criação de escolas não capitalistas? Onde estudam e trabalham seus filhos e filhas? Mas..."enquanto a revolução não vem"... Esquecemos de que qualquer transformação dos modos de produção serão realizadas pela classe trabalhadora? Que nada cairá do céu? E o que temos feito neste sentido? Apesar de nossos irmãos e irmãs latino-americanas estarem avançando muito com os bolivarianismos, movimentos populares indígenas, feminismos comunitários, EZLN... Apesar de os povos e nações indígenas, ribeirinhas, quilombolas... de nosso país terem muito a nos ensinar sobre isso... mas estarem sendo dizimados, o que temos feito no Brasil para criar relações - de produção - não capitalistas? Por que não temos redes de produção, distribuição e consumo de alimentos agroecológicos? Por que não temos empresas não capitalistas? Por que não temos escolas nossas? O que significa se dizer de esquerda no Brasil hoje? É preciso que surjam novos movimentos e partidos que desde baixo, pratiquem outras formas de política, rumo a outro modelo de organização social - pluriestado? -, a outras culturas "não ocidentais" e outras formas de economias políticas - não capitalistas-, antes que o Neoliberalismo nos elimine. E não duvido que este seja seu projeto. Pois é isso que está fazendo, dia a dia.
Comments