Fratelli tutti (todos irmãos): sobre a fraternidade e a amizade social - Introdução
- Hugo Allan Matos
- 14 de out. de 2020
- 5 min de leitura
A partir de hoje, farei uma série de textos sobre - e a partir- da Encíclica (carta) de papa Francisco. Um texto e um vídeo no youtube. O que serve apenas de reflexão e convite à leitura da maravilhosa carta que o papa nos deixa como legado.
Ainda não conhece meu canal? Assina lá? https://www.youtube.com/channel/UCPU9LiEC3j_2yfipChc37DQ?view_as=subscriber
O texto completo da Encíclica você pode baixar aqui: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html

Utilizando-se de alguns textos de Francisco de Assis, papa Francisco publica no dia 03/10 de 2020 sua carta ao mundo sobre a amizade e fraternidade universal. Esse gesto é carregado de simbologia e sentido, quais para começar a compreender é necessário conhecer a história do santo de Assis.Giovanni di Pietro di Bernardonne (1182-1226). São muitas as histórias sobre a vida de Francisco de Assis, diversos filmes, biografias, indico que os veja e leia sobre. Mas o que é comum a todas elas: um jovem que abandonou tudo o que tinha (e tinha muito), para viver o Evangelho, a Verdade revelada por Jesus, em um tempo que a Igreja não o fazia. Uma instituição poderosa, da Cristandade, que matava em nome de deus, recebeu a graça do anúncio da plenitude do amor de Deus, como no Evangelho, anúncio que ecoou por todos os cantos da Europa, cantando a possibilidade de viver a pobreza, o amor à criação e a todas as criaturas.
Papa Francisco, em todas as ações de seu pontificado até aqui, esforça-se em mostrar-nos o mesmo, em ser luz, em tempos tão difíceis, que agora numa proporção mundial, dando-nos a graça de ter esperança e esperançar que a vida não acabou! Que vale à pena crer no ser humano, pela graça de Deus. De um Deus que é pai, nos tornando a todos, todas, todes iguais, irmãos e irmãs, amadas, amades, amados por Ele e nesta irmandade entre nós e com toda a criação (natureza) devemos nos responsabilizar.

Este é o contexto da carta. No primeiro parágrafo da introdução, papa Francisco, retomando uma das questões centrais da Bíblia cristã, sobre "quem é nosso próximo" ao qual devemos amar e servir, nos faz reviver um dos conselhos que o santo de Assis recomenda a seus seguidores e seguidoras: "Destes conselhos, quero destacar o convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço; nele declara feliz quem ama o outro, «o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de si»". O amor irrestrito, que não classifica, que não condena, que não tem medidas ou distância...
No segundo e terceiro parágrafos, o papa traça uma continuidade desta carta, à anterior: Laudato Si (louvado seja), qual diz também ter sido escrita por inspiração na vida do pobre de Assis. Se aquela a ênfase está no "cuidado da casa", na urgência de uma relação cuidadosa e responsável com a natureza, nesta, o acento está em nossas relações "de amizade e fraternidade". O ponto de partida é a visita que Francisco de Assis faz ao sultão Malik-al-Kamil, mesmo a Igreja estando em Cruzadas - caçada - contra todos os não cristãos, pela conquista de Jerusalém. A exemplar submissão de Francisco, sem perder ou descaracterizar sua fé, ao sultão, é o fundamento de seu amor pela humanidade. O quanto não podemos aprender com ele, hoje? A crença numa religião não pode ser barreira ou impor fronteiras e limites ao amor.

"Não fazia guerra dialética impondo doutrinas, mas comunicava o amor de Deus; compreendera que «Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus» (1 Jo 4, 16)". O quarto parágrafo nos traz uma reflexão importantíssima aos dias de hoje. O que o papa quer dizer com "guerra dialética" impondo doutrinas? Disso entendo bem. Desde os 14 anos, por influência de minha educação cristã, atuo em movimentos eclesiais, sociais, etc. E não raramente, nos movimentos sociais, como na igreja, percebo esta perene tendência do domínio nas pessoas, que ainda que inconscientemente, relacionam-se apenas com iguais. Querem converter aos outros, ao que elas são, ou seja, impôr suas crenças, sua forma de ser às outras pessoas. Esta dialética que impõe doutrinas, este "vício" de negar o que a outra pessoa é e querer que ela seja o que sou, perpassa a história. Faz parte da totalização de e em si mesmo, que na tradição judaica-cristã nos remonta ao pecado original. É preciso que nos libertemos desta tendência e é o amor que nos possibilita isso. Amar uma pessoa é aceitá-la como ela é. Neste mundo de guerra, de polarizações, de competição..como no de Francesco, podemos também encontrar o que é necessário para libertar-nos, como nos diz o papa: "Lá, Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos. Foi ele que motivou estas páginas."
O testemunho do papa, seu exemplo, por si, nos leva a contemplar a beleza e a sacralidade de Francesco e à de Jesus Cristo. Em cada ação, há expressa, explícita, a possibilidade de hoje, realizarmos o que nos parece impossível ao olharmos com os olhos desta sociedade. No quinto parágrafo da introdução nos diz:
"...se na redação da Laudato si’ tive uma fonte de inspiração no meu irmão Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo que propunha com grande vigor o cuidado da criação, agora senti-me especialmente estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei, em Abu Dhabi, para lembrar que Deus «criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos»

É a ação trazida como fundamento dos diálogos com pessoas lideranças de outras fés, em busca de paz. É a convicação a que vivamos nossa irmandade no mundo, o respeito às alteridades e a co-responsabilização pela humanidade. E é para isso, que o papa tem realizado exaustivamente diálogos e colhido contribuições: "acolhi também numerosas cartas e documentos com reflexões que recebi de tantas pessoas e grupos de todo o mundo."
E nos parágrafos 6,7 e 8, já na introdução, nos vem uma primeira crítica fundamental. Diante do contexto da pandemia:
"Apesar de estarmos superconectados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afetam a todos. Se alguém pensa que se tratava apenas de fazer funcionar melhor o que já fazíamos, ou que a única lição a tirar é que devemos melhorar os sistemas e regras já existentes, está a negar a realidade."
E aqui, pode parecer desconcertante, mas a evidenciação já presente na encíclica anterior: este modelo de organização social, esta forma de vida, não é sustentável, é impossível que queiramos melhorar como humanidade e queiramos continuar a viver do mesmo jeito. São necessárias rupturas e quem não toma consciência disso, está a enganar-se, a negar à realidade. O oitavo e último parágrafo da introdução me é tão marcante, tão profundo, qual escolho citá-lo integralmente aqui, porque dele podemos tirar toda uma reflexão contra o individualismo, identitarismo, quais são, a meu ver, dois grandes males de nossa sociedade atual.
"Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade. Entre todos: «Aqui está um ótimo segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente (…); precisamos duma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos! (…) Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos». Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos."
Tornar a vida uma aventura! Arriscar-se a sair de si, jogar-se num encontro com o outro, respeitando-o em sua alteridade. A vida em comunidade exige de nós qualidades difíceis no modelo de vida atual. Arriscar-se a este salto, a negar os "benefícios" deste modelo de sociedade e avançar rumo ao outro, ao desconhecido, ao infinito, como diz Emmanuel Lévinas. Continua...
Comments