Autorreferência como estratégia filosófica metodológica: além de Narciso, Crime e Castigo.
- Hugo Allan Matos
- 5 de dez. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de out. de 2019
É comum ouvir e ler posições contrárias à autorreferência. Gealmente estas posições acusam aquelas pessoas que praticam - inclusive já fui acusado -de narcisismo-.
Enquanto no mito do herói há uma autocontemplação de sua própria beleza e orgulho, seria a autorreferência teórica, epistemológica a mesma coisa?
É comum na história da filosofia e do pensamento ocidental a autorreferência.
Contudo, é em nosso tempo, apenas na contemporaneidade ou crise da modernidade que torna-se comum a crítica à autorreferência.
Além da quase de senso comum crítica como narcisismo há outra, mais sofisticada e contemporânea que leva o nome de "síndrome de Raskólnikov".

Rodion Românovitch Raskólnikov é pesonagem principal de Crime e Castigo, uma das principais obras de Fiodor Dostoiévski. A personagem formula uma teoria de que há pessoas extraordinárias, que por terem o conhecimento do bem e do mal estão acima dessa binariedade moral, podendo praticar o mal, quando têm uma boa finalidade. Para entender melhor o caso leia: aqui e aqui.
O que nos interessa aqui é que de forma geral, a autorrefência é vista como doença, como defeito, como problema, o que de fato pode resultar em, como bem mostra Dostoiévski, no romance e Augusto Boal, ao comentar a situação brasileira atual e você pode lê-lo aqui.
Quero contudo, não tirar a responsabilidade de Raskólnikov pelo crime que cometeu, tampouco legitimar sua teoria que mostrou-se errada e Dostoiévski enfatiza isso ao mostrar o quanto a personagem sofre com a culpa - legítima e sentida - com a qual convive, seu castigo. Almejo chamar a atenção para um outro problema, qual recorrente nas coisas em que escrevo e falo, qual seja: o colonialismo cultural e o espelho que o encobre.
Quando pensamos em Raskólnikov o pensamos a partir do que Svidrigáilov, sua companheira espelha dele. Ela, concebida desde o princípio como a "normal" da relação, vai mostrando a personalidade doentia de seu parceiro. Priscila Marques nos mostra aqui como ocorre essa relação.

É baseado nessa imagem de um "espelhamento distorcido" propiciada por Priscila que quero enfatizar uma coisa para terminar essa reflexão: há um outro de nós mesm@s e quando não aprendemos a olhá-lo no espelho o vemos pelo espalhamento que outras pessoas fazem. E geralmente este é a partir da percepção que elas têm de nós, portanto, uma percepção distorcida, não por má intenção, mas porque todo "espelhamento" que uma pessoa faz de outra, passa, necessariamente , pela percepção que esta tem. E você pode estar perguntando-se: Hugo e o que isso tem a ver com colonialismo cultural e mais ainda com autorreferência? A imagem que temos de nós mesmos - enquanto Brasil, América Latina, Sul...- é espelhada, em grande parte pelas teorias eurocêntricas, que são distorcidas. Nós não nos lemos, não conhecemos nossa cultura, não nos assumimos como nós. Nós nos vemos a partir dos olhos dos outros. Na dimensão ética - quando você faz uma reflexão sobre si mesm@ e suas relações - e na dimensão político-social-cultural, enquanto povo.
A autorreferência é a forma de me relacionar comigo mesmo, de me atualizar, me retomar, me implicar na questão...Refletir sobre nossa cultura, sociedade e política desde nossas teorias, nossa estética, nossas culturas é olharmos para nós mesm@s, é rejeitar o reflexo turvo que nos mostram como outros e nos assumirmos como NÓS, como sujeit@s da relação com nós mesm@s. José Backes nos mostra aqui como o outro frequentemente é associado ao mal. E n´pos nos habituamos a nos vermos como outros, não como sujeit@s. Como sujeit@s infinitamente diferentes de tudo aquilo que podem dizer que somos, como tenho pensado a partir do conceito de alteridade em Emmanuel Lévinas.
Portanto, cite-se, olhe-se, perceba-se, conheça sua cultura, seu lugar, seu povo, as culturas populares, as influências em sua família...e também a imagem turva dos espelhos que criam de você. Pode ser que elas sirvam para que se veja de outras formas. O que é importante, para sempre lembrar-se de que há uma/a outr@ de sí mesm@ com quem você sempre precisa estar em relação.
Comments