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Relato sobre as eleições da APEOESP 2023 e a luta Pela Educação Pública




Permita-me começar apresentando-me e falando um pouco desde onde falo, que é semelhante ao lugar de milhões de pessoas da minha geração. É importante que você saiba, para que possa fazer seu próprio filtro, ciente de que esta é apenas uma possibilidade de análise, dentre outras.

Meu sonho desde que saí do Ensino Médio público de extrema periferia era voltar para a mesma escola como professor. Não por que fosse aluno exímio, pelo contrário, sempre mediano, mas esforçado, fazendo o necessário, não via sentido já naquela época de 1994-1997 na educação pública como estava. E o sonho era voltar pra tentar melhorar. Filho de faxineira e metalúrgico, trabalhei desde os 14 anos, fiz SENAI, trabalhei descarregando caminhão de roupas na CeA, telemarketing na Atento, manutenção de computadores, vigilante com curso pela Polícia Federal, como todo jovem pobre me virei. Mas como militante em movimentos da igreja católica, também desde os 14 anos, sempre ficou em mim a dúvida da vocação, entrei num curso universitário de teologia, mas em 2003, ocorreu a ocupação Santo Dias, no terreno da volks, e junto as mais de 3 mil famílias sem teto, passei por uma experiência mística muito forte, qual por conselho de um padre amigo, entrei no seminário para poder discernir tudo aquilo e minha vocação. Tendo discernido, resolvi que não seria padre e percorreria o sonho de ser professor e voltar para a comunidade de onde vim. Quando saí do seminário, já iniciei minha carreira como professor de Educação de Jovens e Adultos, conciliando-a com a profissão de vigilante que me permitia pagar os custos de estar em outro estado, longe da família e sem rede de apoio. Voltei para minha família, fui trabalhar como motorista, terminar faculdade de filosofia até que em 2012 abriu concurso público para professor do estado de São Paulo e fui aprovado com ótima nota, o que me possibilitou escolher para onde iria e a escola de onde saí foi a minha opção.

Ao chegar na escola, muito mais maduro do que quando dela saí, percebi desde dentro as limitações das professoras e professores no cotidiano escolar. Estão sós, em um sistema educacional que abriga subsistemas de corrupção generalizada, desde a escolha das gestões escolares, que ainda hoje são cargos políticos e não concursados, até superfaturamento nos serviços, não pagamento devido ao salário dos profissionais, esquema de corrupção na merenda... Durante três anos me doei plenamente aos estudantes, mas também entendendo e fazendo-os entender que a educação é muito maior que a escola. Entrei logo na APOESP, a convite de preciosos companheiros da TLS e do PSOL, alguns dos quais, estavam lá naquela ocupação de 2003. Filiei-me ao PSOL, e passei a militar pela causa da educação pública. Mas estes três anos me mostraram o quanto professoras e professores estavam sendo massacrados e o quanto o sistema de educação pública é base de um verdadeiro apartheid entre as classes trabalhadoras, dividindo-nos, classificando-nos, nos colocando uns contra os outros e nos dizimando. Ano a ano até 2015 percebi a lógica deste sistema montado para ser a base de algo muito maior, o apartheid de classes na sociedade brasileira, qual a escola pública é o caldeirão que possibilita este modelo de sociedade que separa as classes trabalhadoras em estagmentos, castas, grupos diversos e faz nos matarmos entre nós.

Junto a estes companheiros preciosos que já doavam a vida pela Educação Pública, aprendi que a Articulação Sindical do PT havia corrompido a APEOESP, pois a aparelhou para seus interesses particulares partidários, abando as professoras e professores a sua própria sorte. E portanto, era preciso tirar a bebel, o PT, para transformar o sindicato e reaproximá-lo da categoria. Precisei exonerar para conseguir manter a casa financeiramente e resolvi atuar um tempo na formação de professores, na universidade. E dali, muitas professoras e professores que pude auxiliar na formação, puderam partilhar esta percepção e hoje são excelentes professores na educação pública e lutam por sua qualidade.

2023. Mais de duas décadas de hegemonia da mesma corrente política, da mesma presidente, que apesar de ter se elegido deputada, não largou o cargo no sindicato, a categoria em geral estando descontente e morrendo em sala de aula, todas as condições objetivas e subjetivas para formar um grande campo de oposição e de vez tirar esta corrente que tanto mal fez à categoria, muitos daqueles mesmos companheiros e companheiras que durante mais de duas décadas, fizeram ferrenha oposição, agora se unem, seguindo uma tendência da esquerda brasileira de aderir às políticas neoliberais. Lula e o PT, desde 2002, aderiram a um pacto pela governabilidade, na tentativa de redução da miséria, ao mesmo tempo que não diminui o lucro dos capitalistas nacionais e internacionais. O Governo da Inclusão. Mas isso, com a minoria no legislativo, os obriga a administrar o projeto neoliberal para a burguesia. O PSOL nasce deste impasse, prometendo ser uma alternativa de esquerda junto ao povo, o socialismo democrático contra o projeto petista democrático e popular que vende a ilusão que é possível mudar o Estado deste dentro. PSOL ganhou nestas últimas duas décadas milhares de filiados, mais de 226 mil, sendo no último período o partido que mais cresce, justamente porque vinha se apresentando como uma alternativa à esquerda. Entretanto, neste último período, o mesmo reproduziu sistematicamente, várias práticas que sempre criticou no PT e foi aproximando-se na prática interna do partido, das correntes políticas que o compõem e nas alianças a tudo aquilo que sempre criticou e que o fez nascer, mostrando ser mais um partido da ordem burguesa, com práticas burguesas de opressão e contra os interesses das classes trabalhadoras.

O apoio eleitoral a Lula e a PT, contra Bolsonaro e contra o risco real de totalitarismos é mais que justificável, mas com diversas ressalvas. Aceitar e querer participar de um governo que fez amplas alianças, inclusive com o partido de Bolsonaro e outros que apoiaram o golpe de 2016, mostra que o PT não aprendeu nada e que continuará ludibriando o povo com a narrativa de que é preciso unir o Brasil. O Psol vende seu programa partidário aceitando e mendigando participação no governo que já se mostrou em poucos meses que será a triste repetição dos 13 anos do governo federal petista: políticas neoliberais na estrutura e medidas populistas eleitoreiras. É isso que ocorre, quando por incentivos fiscais abaixa-se o preço da picanha, dos combustíveis, etc. Ao mesmo passo que rifa a Amazônia, aprova o arcabouço fiscal, não revoga o Novo Ensino Médio. Mas Fernando Haddad, já como ministro da educação nos mostrou bem o compromisso do lulopetismo com o neoliberalismo: ao passo que foi o governo que mais construiu universidades públicas, criou políticas de privatização da educação pública a partir de políticas de inclusão das classes trabalhadoras nas universidades privadas, o que criou os grandes “tubarões da educação” que inclusive ajudaram no golpe parlamentar contra Dilma e a eleger Bolsonaro. Também nestes 13 anos, o PT não fez um único programa de participação popular real no governo, bem como de educação política crítica, desarticulando tudo aquilo que já existia e que o elegeu em 2002 com mais de 80% de aprovação. Por fim, o PSOL, colocando-se a reboque do PT, efetuou a Federação com a Rede Sustentabilidade e internamente está se polarizando em duas (ou três) correntes políticas hegemônicas que instauraram uma divisão de classes interna no partido, impedindo toda a diversidade política e democracia socialista, instaurando uma verdadeira ditadura que levou diversas correntes e coletivos menores a um processo de liquidificação, ou seja, todos entrarem nestas correntes, caso queiram ter voz ou vez dentro do partido. Instaurou-se a política da força, da violência simbólica, tal qual os outros partidos da ordem burguesa.


Por fim, o apoio das correntes políticas do PSOL que se diziam de oposição à articulação sindical do PT, quando olhamos para este processo não é novidade. É um processo político que mantém uma narrativa combativa, ao passo que todas as práticas e processos da militância no dia a dia, mostram reprodução da política neoliberal e nenhuma preocupação com criar e apresentar alternativas às classes trabalhadoras e às categorias que dizem representar e que se afastam dia a dia. Nestas eleições da APEOESP foi triste ver companheiros do PSOL reproduzirem as mesmíssimas práticas de violência e corrupção que preciosos e preciosas militantes de suas correntes criticaram uma vida toda na articulação sindical (PT). Mas parece que o lema de constantino: “não pode com eles, juste-se a eles” é a tônica infalível na política ocidental. Foi possível, contudo, observar uma linda campanha de oposição realizada pela Chapa 2 que teve o coletivo reviravolta na educação e coletivos aliados, apresentando alternativas ao professorado e fazendo a verdadeira e necessária oposição.

Entretanto, não cansemos de criticar e construir alternativas verdadeiras, encontrar brechas e aprender com estes movimentos históricos. É preciso compreender que as estruturas milenares da sociedade burguesa não as destruiremos de uma hora para outra. Mas é inevitável que para que o novo nasça, não reproduzamos, fortaleçamos o que aí está e é preciso que destruamos estas formas burguesas de praticar a política. Em todas as suas dimensões, sejam as sistêmicas ou as que junto ao povo, na base e entre os movimentos e coletivos ao lado dos quais enfrentamos nossos verdadeiros inimigos.

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