O Natal e o Mercado da Bondade: Entre a Solidariedade e o Espetáculo
- Hugo Allan Matos

- 18 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

De repente, as luzes acendem e o mundo parece mais doce. No Natal, as "pessoas boas" brotam em cada esquina. Campanhas de arrecadação, cestas básicas e fotos de mãos dadas multiplicam-se nos nossos feeds. É bonito ver o movimento, mas é urgente perguntar: quem é o verdadeiro protagonista dessa cena?
Precisamos, sim, denunciar a injustiça. Precisamos mostrar que a fome existe para que ninguém se sinta confortável diante dela. Mas há um limite ético perigoso entre visibilizar a causa e expor a pessoa. Muitas vezes, para validar uma "boa ação", expõe-se a miséria alheia de forma crua, retirando do outro o seu último refúgio: a dignidade.
O sofrimento não deveria ser um cenário para o marketing pessoal. Quando transformamos a dor do próximo em um espetáculo de "coitadismo", estamos, na verdade, reforçando a desigualdade. Tratamos quem sofre como um objeto de caridade, e não como um sujeito de direitos.
Enquanto muitos doam de coração aberto, outros operam nos bastidores do que chamamos de "indústria da miséria". É revoltante saber que, sob o manto do Natal, existem esquemas de corrupção e desvios de verbas que deveriam chegar a quem tem sede e fome.
Pior ainda é a busca pelo "like ético". A construção minuciosa da imagem do "cidadão de bem" — muitas vezes usando o nome de Deus e a religião como escudo — serve para comprar prestígio social. O reconhecimento público vira a moeda de troca. A doação vira investimento em imagem.
Bondade ou Manutenção da Miséria?
A pergunta que fica para o dia 26 de dezembro é: essa bondade permanece?
A mão que entrega o alimento é a mesma que vota contra políticas de inclusão?
O coração que se emociona no coral é o mesmo que ignora as injustiças estruturais que geram essa mesma miséria o ano todo?
Uma bondade real não se limita a aliviar o sintoma; ela questiona a doença. Se a nossa solidariedade apenas mantém a dependência para que possamos continuar parecendo "bons", então não é amor — é controle. A verdadeira compaixão visa a sua própria extinção: ela trabalha para que o outro não precise mais de nós.
Neste Natal, que possamos acolher as pessoas, e não apenas a sua pobreza. Que possamos proteger a imagem e a história de quem está em vulnerabilidade. E, acima de tudo, que a nossa indignação contra a injustiça seja mais forte do que o nosso desejo de ganhar aplausos.
Que a bondade não seja um evento sazonal, mas um compromisso inegociável com a dignidade de cada ser humano.






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