Crônicas de um filósofo brasileiro de ideias não tão próprias...Fragmento 327. p.1052.
- Hugo Allan Matos
- 27 de nov. de 2018
- 2 min de leitura

Isso extendido no chãoé um corpo, só, sem chance de socorro. Um corpo dentre diversos, talvez milhares de corpos que hoje cairão, pessoas que deixarão à vida, a grande maioria sem qualquer planejamento ou espera. A média atual é de 152 mil pessoas por dia, no planeta. Quase duas pessoas por segundo. Com tantas pessoas assim morrendo me parecia que a morte já fosse algo natural, ou corriqueiro, sem valor, como a vida tornou-se. Mas, não contava que agora eu estaria aqui, olhando para o que restou de mim, sem saber o que fazer. Sim, há vida após à morte. Este corpo que agora olho, isso, é o meu, ou costumava ser eu. Agora não sei quem ou o quê sou, pois tento olhar-me e não consigo. Talvez andando por aí, encontre mais alguém que está deixando à vida agora e possa ajudar-me. Tento sair, mas não consigo mover-me. Parece um castigo ficar olhando para isso. É como se eu tivesse que reconhecer algo que em vida, fazia muito, já vinha pensando: o que fiz comigo? Isso que agora olho, por quanto tempo maltratei? Com tantas horas de trabalhos diários, péssima alimentação, nenhum cuidado. Seria isso, resultado de um suicídio não intencionado? Eu não queria morrer. Não agora, ora, e há alguém que queira? Que confessasse ter querido, agora sabendo que a morte não é O fim? Ei tem alguém aí? Grito repetidamente, desesperadamente, por não poder mais olhar para isso que fiz de mim. Mas espere. Será que posso eu culpar-me sem considerar tudo o que me foi feito? Será que eu pude mesmo escolher e fiz por maldade, relaxo, qual descuido apliquei a isso, que agora poderia eu ser o culpado? Serei julgado por isso? E meus julgadores, como eles são? Será que passarei pelo purgatório? Quem irá defender-me? Nunca fui tão devoto assim, mas aprendi que Maria, a mãe de nosso salvador aqui estaria. Com sua sensibilidade, talvez ela ajude-me a argumentar...ei espere, aprendi também, que tod@s aquelas pessoas que conhecemos e morreram agora aqui estariam. Mas não me recordo bem se me reconheceriam ou não, se seria possível uma terceira intercessão, espero que sim, pois minha mãezinha, faz pouco que deixou à vida. Se ela puder interceder de alguma forma, junto à Maria, sei que estarei em paz...E foi então, após esta breve reflexão a partir da qual eu pude reconhecer que não fui eu apenas o culpado pelo que me ocorrera, pelas decisões que tomei durante a vida, que puderam inclusive acarretar na morte de meu corpo, que eu consegui me mover. Voltei a meu corpo, respirei. Ressuscitei. Renasci. E sei que ainda assim, mesmo passado por essa experiência libertadora, ainda assim, posso escolher o que farei de mim mesmo, mas NUNCA posso culpar-me a mim mesmo por aquilo que não fiz e que meu corpo padece, se deixa afetar, contrário à minha vontade. Simplesmente, estamos no Mundo e se pudéssemos controlar tudo, não seríamos humanos, incompletos, limitados. A vida é aprendizado. Espero que consiga aprender com essa experiência e tratar-me melhor de agora em diante, sabendo e reconehcendo minhas limitações. E creio que existe vida após à morte. E que iremos tod@s reencontrar-nos.
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