A Armadilha Identitária e o Caminho do Enosamento: Do Ego Conquiro ao Shalom Comunitário
- Hugo Allan Matos

- 5 de mai.
- 6 min de leitura
A formulação de quem somos, nossa identidade, está historicamente enraizada na ontologia que herdamos. A cultura ocidentalcêntrica foi erguida sobre uma compreensão do ser humano que privilegia o "Eu" autônomo, dominador e glorioso. Ao analisarmos a genealogia da identidade na antropologia filosófica, fica evidente que o humanismo helênico e indo-europeu instituiu uma "razão identitária" baseada no dualismo e na hierarquia. Em contrapartida, a cultura semita bíblica propõe uma subversão dessa lógica através da intersubjetividade e do esvaziamento.
1. A Razão Identitária e o Ego Conquiro na Cultura Greco-Romana

Na matriz grega e indo-europeia, a constituição do sujeito foi forjada na negação da matéria e do outro, operando por um dualismo que separa corpo e alma, criando hierarquias que excluem a pluralidade. O ideal humano é aquele que ascende, domina e se diviniza. A identidade ocidental nasce, assim, como uma vontade de poder, onde o indivíduo é engolido pela glória própria ou submetido à "Totalidade" de uma pólis ou império.
Para fundamentar essa cosmovisão excludente e hierárquica, podemos observar cinco aspectos centrais apontados na minha tese, ao abordar sobre o humanismo helênico:
"Em todos os povos indo-europeus incluindo os romanos, gregos, persas, hindus etc. o dualismo antropológico impede, por um condicionamento a priori das estruturas coletivas e históricas, o nascimento de uma ciência antropológica. O ser humano é 'a alma' a doutrina do ser humano não pode ser outra que a 'psicologia' (Peri psychés)." (MATOS, 2025, p. 18).
A alma grega é vista como divina, eternamente separada das vicissitudes da história e da matéria:
"A alma humana foi introduzida por 'Necessidade' em um corpo, por isso é uma mistura do 'princípio imortal do Vivente...' e 'das porções de fogo, terra, água e ar que lhe foram tiradas do Mundo e que um dia lhe serão devolvidas... A alma humana 'não nasceu' (ἀγένητον), é imortal, é eterna (αιδιος), é uma participação da Ideia de Vida." (MATOS, 2025, p. 26).
A consequência ética desse dualismo é o desprezo pelo corpo e pela vida em comunidade prática, relegando a ética coletiva a um plano inferior:
"A vida 'segundo a virtude (moral) deve ser colocada em segundo lugar', depois da 'vida segundo o entendimento'. As principais virtudes entre as morais são: a prudência e a justiça. São as virtudes sociais das realidades humanas misturadas com as paixões e, por elas, o corpo. Ou seja, 'as virtudes do composto (corpo-alma) são simplesmente humanas'." (MATOS, 2025, p. 28).
Politicamente, essa identidade se converte em domínio e justificação da escravidão, tratando o Outro materialmente inferior como mero instrumento:
"Uma vez que entre a alma e o corpo existe a mesma relação que entre o trabalhador e seu instrumento ou que entre o "senhor" e uma pessoa escravizada por ele, não se estabelece entre eles nenhuma comunidade (κοινωνια). Pois em tais relações não há dois termos, mas um... O corpo, instrumento conatural (da alma) e escravo de seu senhor..." (MATOS, 2025, p. 36-37).
A liberdade, portanto, é concebida como a ausência de submissão ao outro, o germe do individualismo:
"O gênio grego elaborou uma doutrina do 'ser humano livre' (ελευθερος) como uma contrapartida ao respeito absoluto e divino pela 'lei' encarnação da coesão política. E uma vez que 'a liberdade consiste em que cada um é livre para viver de acordo com a sua vontade', tal então, um novo sinal de democracia: a pretensão de não ter donos." (MATOS, 2025, p. 34).
Dessa base ontológica emerge o que escrevi em Matos (2025) diagnostica como o risco das "armadilhas da identidade". A identidade ocidental, com seu núcleo de autoafirmação heróica e trágica, atua como uma lógica de dominação herdada do pensamento aristotélico e platônico, onde toda identidade vira domínio e submissão do Outro.
2. O Humanismo Semita e a Metafísica da Aliança

O humanismo semita rompe radicalmente com essa totalidade. A identidade no horizonte bíblico não é uma substância eterna fechada em si, mas uma "metafísica da Aliança", uma resposta ética ao chamamento do Outro na história. A corporeidade não é uma prisão, mas o lugar da verdade da vida. O ideal não é a deificação do intelecto, mas o Shalom, a paz integral e o cuidado encarnado.
Cinco constatações que escrevi na tese ilustram a radicalidade dessa cultura da alteridade:
A identidade humana não é dividida; ela é uma totalidade carnal e vivente:
"Nefesh significa substantivamente 'garganta', por uma transmutação metonímica designa igualmente o 'suspiro' ou a 'respiração'. É o 'desejo' ou o 'apetite'; ainda mais, é a 'vida' mesmo, o 'ser vivente' por isso está em relação com o sangue... Chega a conter o sentido do 'eu vivente'." (MATOS, 2025, p. 46).
A responsabilidade moral repousa na liberdade histórica, não em uma tragédia do destino:
"O verbo "bara"(בָּרָא) tem em toda a Bíblia, como único sujeito, o Eu pessoal de Javé... Enquanto a culpa, o pecado, o mal, é a operação humana (eu fiz hasíti). Essa falta existe no 'coração', na interioridade, na faculdade judicativa..." (MATOS, 2025, p. 50).
A constituição do sujeito só ocorre no laço comunitário, no "Nós" do tempo presente:
"Escuta, Israel (Shemá Isra'el), as leis e costumes que pronuncio em vossos ouvidos. Aprende-as e mantenha-as em seus ouvidos, para praticá-las. Yahweh, nosso Deus, fez conosco uma aliança (brit - בְּרִית) em Horebe. Não é que Javé concluiu esta Aliança com nossos pais, mas conosco ('itanu - אִתָּנוּ ), nós ('anajnu - אֲנַחְנוּ) que estamos aqui (poh - פֹּה) hoje (haîom - הַיּוֹם), vivendo (jaîîm - חַיִּים)..." (MATOS, 2025, p. 53).
A salvação e a realização humanas são comunitárias, impedindo o narcisismo existencial:
"Sendo o ser humano unitário e a causa do bem e do mal, a partir da metafísica ou da intersubjetividade que constitui a Aliança, o aperfeiçoamento pessoal ou individual do semita deve ser sempre realizado em comunidade. A auto perfeição é impensável, para um semita, fora da comunidade que o salva." (MATOS, 2025, p. 63-64).
A revolução de Jesus coroa essa cosmovisão, propondo um Reino fundado no esvaziamento e livre do instrumental de poder e glória terrestre:
"...o Reino dos Céus (malkót shamaîm - מַלְכוּת שָׁמַיִם ). Com isso, se opunha não só ao racismo fechado, a um nacionalismo palestinense ou a um orgulho jerusaliniano (em torno do Templo), mas se opôs às práticas meramente 'carnais' do judaísmo... Este Reino autônomo... se constitui em torno de uma Pessoa." (MATOS, 2025, p. 58).
Conclusão: O Esvaziamento de Si e a Práxis do Enosamento

Se a identidade forjada no ocidentalcentrismo exige a afirmação bélica do "Eu" (o orgulho, a autopromoção e a aniquilação simbólica ou física do outro), a cosmovisão semita e a mensagem encarnada de Jesus exigem o exato oposto. Para superar a armadilha de uma "razão identitária", a tese (Matos 2025) propõe a práxis do Enosamento.
O Enosamento é a política do "fazer-se nós" a partir das margens. Mas esse "Nós" comunitário jamais pode nascer do choque orgulhoso entre egos que querem ser deuses. Ele só é possível através do esvaziamento de si (Kenosis). O esvaziamento não é anulação do indivíduo, mas a destruição do ego conquiro. É o ato voluntário de descer do pedestal da honra egoísta para reconhecer a materialidade, a fome e a dignidade do Outro.
O esvaziamento de si é fundamental para a possibilidade de qualquer vida comunitária verdadeira. Em perspectiva de ancestralidade, agradecendo e honrando a memoria de quem veio antes, responsáveis por dar a vida e construir a sociedade em que estamos, mesmo com todos os problemas, na família, substitui-se a regra patriarcal de posse e do individualismo pela "economia do cuidado", cuidar e deixar ser cuidado/a, onde o afeto e a partilha superam a dominação do lar e todas as pessoas esvaziam-se de suas vontades pessoais e configuram juntas vontades familiares. Na comunidade de fé, o esvaziamento impede que a religião se torne uma repetição de dogmas de poder (como a Cristandade imperial), retomando a essência da hospitalidade radical aos marginalizados. Na sociedade, o esvaziamento constrói uma "gramática do comum", superando as lutas identitárias neoliberais que apenas buscam incluir particularidades no mesmo sistema de opressão.
Apenas abrindo mão do desejo de "fazer um grande nome", muitas vezes humilhando-se, para que o outro prevaleça e substituindo a "vitória de um eu" numa guerra de todos contra todos, pela ética do serviço e da reciprocidade, conseguimos transcender a identidade como domínio. O esvaziamento de si é, portanto, o único alicerce que sustenta a paz integral (Shalom), permitindo que a humanidade fracassada no projeto moderno renasça na solidariedade concreta de um "Nós".
REFERÊNCIAS
MATOS, Hugo Allan. Enosamento como práxis política de libertação. Tese (Doutorado em Filosofia) - Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal do ABC (UFABC). São Bernardo do Campo, 2025.




Comentários